Blog do Inácio Araújo

O que é “buzz”?

É preciso ler a crítica de Cássio Starling Carlos (aqui) sobre o mais recente exemplar da saga “Crepúsculo”, na Folha de sábado, 18/11 e depois respirar com alívio pensando que a crítica ainda está viva.

Cássio não dedica ao filme propriamente mais do que cinco ou seis linhas. Mas por que o faria? Trata-se do enésimo exemplar de uma série cujo único efetivo mistério consiste no seu sucesso. O que cabe a um crítico nesse caso? Dizer que a fotografia está boa? Que os atores são bons ou maus? Que os efeitos especiais são adequados?

De certo modo é o que se espera. É o que espera a instituição cinematográfica. Essa corporação silenciosa que reúne os interesses econômicos em torno de filmes e similares.

Há uma outra função eventualmente insignificante. Consiste em procurar o significado do sucesso de sagas como esta. Para onde elas apontam? A volta do amor romântico? Da virgindade? Combate ao racismo? A preconceitos em geral? Etc.

Bem, tudo isso já pode ter sido procurado nos filmes anteriores (e admito que no primeiro existe, ainda, uma curiosa atmosfera na cidadezinha e na relação meio tortuosa de pai e filha; nada que não se desfaça depois). Não faz sentido. Não há sentido nenhum nisso. Como não há nas imagens, nos atores, nada.

Tudo que importa, enfim, é o “buzz”.

E o “buzz” é, pelo que entendi, esse imperdoável aparato publicitário que invade jornais, televisão, internet para criar um clima de expectativa em torno de um determinado evento. De tal modo que havia 300 mil ingressos previamente vendidos, segundo a publicidade (pois não seria uma obra de publicidade manobrar com certos números e operações como a multiplicação?).

Pode-se argumentar que uma parte relevante do “buzz” consiste em escolhê-lo. Por maior e mais competente que seja o esforço publicitário não comoverá os espectadores a ver um documentário sobre a vida dos esquimós, digamos. Mas, à parte esse dado inicial (que remonta ao início da série, à decisão de produzi-la ou não), tudo o mais remete à publicidade.

Pode-se argumentar, igualmente, que a publicidade sempre fez parte do cinema, o que é verdade. Ainda assim, convém lembrar que a publicidade anterior aos anos 1980 era algo, digamos, artesanal. Rodava em torno dos atores, eventualmente de sua vida privada, e depois tratava do filme. Ele tinha existência para além do fenômeno publicitário. A publicidade existia para impulsionar o filme. Hoje estamos no caso inverso, do filme como motivo a impulsionar a publicidade.

Talvez não seja tão diferente em outros ramos (a política, por exemplo, onde alguém “vende” “a imagem” de alguém), mas o nosso caso basta para dar um idéia de como as piores previsões de Orwell & Huxley sobre um mundo absolutamente controlado estão se tornando um fato do dia-a-dia debaixo dos nossos narizes.

Pode-se argumentar ainda que o fenômeno de filmes tolos e de sucesso existe há muito, como prova, por exemplo, “Love Story”. Aceitemos. Mas aí entramos um pouco na analogia entre o amor e o cinema que Cássio faz. De resto, o cinema sempre apelou ao chamado melaço.

Mas isso era sujeito a uma crítica, a uma contra-corrente a nos lembrar que ao lado disso existia outras coisas. No mundo ditatorial em que entramos agora, em que se adora Steve Jobs como um deus (é outra história, mas não tão distante assim) justamente por criar adoidado novos mecanismos de controle, não existe mais essa contra-corrente, ou ela se torna cada vez menos significativa, existe na universidade e arredores (mas, ah, se você puder pegar uns maconheiros no campus, que beleza!, usa-se todo esse aparato para desmoralizar qualquer busca de conhecimento e ficamos só com o “Crepúsculo” e a novela mesmo).

Bem, desculpem o tamanho disso aqui. No fundo era para agradecer ao Cássio por tão bela, tão ousada, tão crítica crítica. E aproveitar para dizer que cresci numa ditadura (só que era aberta, ao menos sabia-se quem eram os inimigos), não tenho a mínima paciência para agüentar o “buzz”, palavra que substitui, enfim, o Big Brother.

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