Blog do Inácio Araújo

Fogo no Rabo

Inácio Araújo

 

Estranho como coisas que deixaram de acontecer, que nunca aconteceram, que precisavam acontecer, de repente entraram na pauta dos políticos.

A TV passou o dia em torno disso

(Ou de filmes desanimadores, como, aliás, quase todos que estão no cinema).

Eu vejo que, com o tempo, começa a se formar uma diferenciação saudável entre direita e esquerda (incluso direita fascistóide, incluso milicos reformados pondo as manguinhas de fora).

Um belo artigo do V. Safatle me ensinou que a mobilização é algo formidável. Vejo, pelo tanto que a Câmara dos Deputados está fazendo em um dia, que é mesmo.

Vândalos vs. Pacíficos

Eis a nova divisão política aceita pela TV, pela Globo sobretudo.

Os manifestantes são pacíficos.

Pacíficos como? Desde quando?

A manifestação é, em si, uma violência. E ninguém ignora isso.

Quando o cara fecha a av. Paulista ele perpetra uma violência óbvia.

Quantas vezes houve negociações sobre passeatas na Paulista (é um exemplo)?

E podia ir de tal a tal hora. Ocupar uma faixa. Etc.

Agora, nem pensar.

O pessoal ocupa a rua, a avenida e tudo mais. É um levante.

Um levante não pode ser pacífico.

A nomenclatura, no caso, existe para domesticar.

Essa violência é que interessa, diga-se, e que está botando fogo no rabo dos políticos todos.

Vejo coisas que estavam na lenga-lenga há anos (prioridades para Educação e Saúde, por exemplo) que de repente entram na pauta de urgência.

PEC-37

A que entrou mais depressa foi a votação da PEC-37. Não sei o que é. Não tenho nenhuma posição a respeito. Mas sei que os procuradores estão contra.

Bem, eles têm um belo lobby nas ruas, seja qual for o motivo.

E mil vezes um lobby aberto, na rua, do que o sinistro lobismo dos corredores do poder.

Os vândalos

Mas eu falava dos Pacíficos.

Como não são obviamente pacíficos, só são pacíficos por oposição aos Vândalos.

Os que depredam coisas, se descontrolam, ou simplesmente aproveitam para saquear lojas ou roubar mesmo.

Em geral são casos de crime comum (quando não de cretinismo direitista).

Mas eles convêm muito, em especial, à domesticação dos outros, os Pacíficos.

Passe Livre

Nada pacíficos, aliás, os meninos do MPL. Foram lá, falaram com a presidente, ouviram, foram respeitosos, mas claros: o governo não entende patavina de transportes.

Na oposição

Depois de não produzir uma ideia desde a morte de Mário Covas, a oposição levanta a cabeça e… repete as ideias que nos últimos dias  pipocaram nas ruas.

Incrível: se tirar FHC parece que ninguém formula nada ali (digo: não se trata de concordar ou não).

Não queria admitir, mas começo a reconhecer que, de fato, o sistema representativo aqui não representa nada exceto os próprios caras. Como eles podem ser representantes (a situação e a oposição), voltarem todo fim de semana para “suas bases”, como dizem, e não sacarem nada?

Na situação

O que se nota, pela TV, aqui, é que os caras da situação estão pondo os panos quentes possíveis na situação.

Qual será a ideia?

Voltar à lenga-lenga anterior?

Claro: as reivindicações não têm um limite, mas o dinheiro tem.

De acordo.

Mas se sentisse que a coisa andava sem empurrar ninguém ia perder tempo se sublevando.

Chamada a Cobrar

Já falei aqui do filme da Anna Muylaert? Originalmente telefilme. Pequeno orçamento. Filme feito praticamente com uma atriz e uma voz (ambos ótimos, é fato). Falso filme sobre os falsos sequestros que marginais presos puseram em moda durante um tempo. Filme mais sobre alienação, ou sofrimento, ou o telefone celular, ou as relações familiares num momento de crise. Enfim, do pouco (e com pouco) a Anna Muylaert faz muito.

O pleno e o vazio

Passo para o oposto. Do pleno ao vazio. Não sei se alguém partilha essa impressão. Mas, de repente, a crise, as ruas cheias, as manifestações, tudo isso, fazem notar o quanto os filmes publicitários são artificiais, vazios.

Cinema Ritrovato

Viajo hoje para o Cinema Ritrovato (se nenhuma manifestação me aparecer pelo caminho do Aeroporto, claro). Ano de Allan Dwan.

É e será um desses momentos cada vez mais gostosos e preciosos do cinema: o momento em que ele se deixa reencontrar, em que os filmes são refeitos, restaurados, revistos. Revivem, enfim.

E, como alguém já disse, é o único festival do mundo onde só tem filme bom.

Ou quase.

De lá escreverei.