Blog do Inácio Araújo

Arquivo : March 2013

Caça aos desviantes
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Inácio Araújo

Do que adianta fazerem uma bela mostra de Samuel Fuller e todo mundo comentar?

A caça aos desviantes está em pleno vigor.

Vigor ditatorial, eu diria.

Vejamos o caso mais recente: um aluno, fazendo exame do Enem, escrevendo a respeito de imigração (quase nunca isso é dito), resolveu fazer uma pausa, para amenizar, e enfiou lá uma receita de miojo.

Foi o bastante para começar um bullying contra o rapaz, contra os examinadores, contra não sei mais quem, comandado, é claro, pelos jornalistas e professores de português.

Com todo respeito, conheci professores de português que eram umas bestas quadradas. Nem todos, há os geniais também. Esses tornam os seus alunos interessados na leitura, por exemplo, e na cultura.

Os outros… Bem, os outros reprimem, exigem respeito à autoridade, esse tipo de coisa.

Volto ao caso. Para mim, o menino da receita de miojo é um sopro de alegria, de criatividade, de liberdade nesse exame chato (como todos os exames).

Se fosse eu o examinador levava nota máxima. Mas eu sou um outro desviante… Minoritário à beça. Nada feito…

Ora, só um tapado não percebe a relevância do miojo na imigração japonesa. É uma marca. Claro, há outras. Há os pintores, os filmes da Liberdade, o suchi (ou suxí?, ou çuchi?), por exemplo.

Um bom professor, acho eu, é o que sustentar e der força a esse menino. Porque é preciso irreverência, é preciso um tanto de desrespeito nesse mundo sacal.

Então vêm os jornalistas, que caem em cima porque são massacrados com esse papo de “norma culta” desde que acabaram os revisores. Fazem erros, não sabem verbos, nem vírgulas. Então precisam aprender tudo de uma hora pra outra. Aprendem mais ou menos, apanham e querem bater nos outros. Eu mesmo, que não sou tão ignorante assim, aprendi um monte quando o Pasquale veio dar aulas na Folha. Foi ótimo. Aprendi, por exemplo, que a gente não mete vírgula quando respira. Não é isso, há uma lógica na coisa. Eu desconhecia isso. E, caramba, sou leitor desde que nasci praticamente. Eu não sabia falar direito e minha mãe já me tinha feito decorar uma poesia do Machado.

Quando eu era copy desk, meu Deus, corrigi textos de sumidades nacionais (e mesmo internacionais) com erros que dariam medo em muito semi-analfabeto. Não tira o mérito da pessoa. Estavam em outro lugar (os méritos). Se caíssem nas mãos desses professores estava lá: reprovado!!!!!!!

A marcha da repressão hoje é quase incontrolável. Não vem dos militares, do governo, da oposição: a palavra de ordem vem dos ex-juízes de futebol na Globo, sobretudo o Wright: tem que punir, tem que expulsar, tem que dar cartão, tem que impor respeito.

Tudo é punição. Respeito. Ordem e progresso. Crime e castigo. Mundo apertado, besta.

Viva o menino do miojo. O do hino do Palmeiras também. Menos. Mas futebol é o que passa na cabeça desses garotos. E o Palmeiras é imigração italiana, não é, então qual o galho?

O pior de tudo é o que o Enem (ou o MEC, ou lá quem seja), apertado pela inquisição, em vez de mandar plantar batatas, já prometeu que vai mudar os critérios, que vai dar nota zero a quem fizer brincadeira na prova e tal e coisa.

Em suma: cartão vermelho. Expulsa. Respeito! Fora da classe! Pra diretoria!

Vigiar e punir.

Nenhuma chance para a alegria, que é a prova dos nove, dizia Oswald.

E onde está Oswald? Cai na prova? Está esquecido.

Gostei do Xico Sá-ience falando da Nicole Puzzi. Era a mais linda atriz do cinema brasileiro, sem dúvida, embora uma má atriz. Tinha muitas mágoas do cinema (e dos produtores), isso a tornou uma atriz dura, como se diz. Mas era um espanto, uma graça.

Voltando ao assunto principal, mas não muito: a nossa língua é difícil, cheia de meandros.

“Dominar a norma culta” é diferente de “erro zero”, como reivindicam os professores e os colegas jornalistas.

A norma culta é uma abstração. Um conjunto de leis perfeitamente modificáveis. Não é a Tábua da Lei. Entram e saem palavras nela. Entram e saem formulações. Para isso existem a escrita e os escritores. Os escritores não os escreventes, como bem dizia Barthes. Deles vamos esperando a contribuição milionária dos erros, contra a miséria dos acertos estéreis.


Crime e Castigo
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Inácio Araújo

1.A Propósito da Verdade

Partiu de Juca Kfouri, na ESPN Brasil, emissora de esportes, a mais clara e veemente explicação do que seja Comissão da Verdade. Isso que os jornalistas de canais de notícia e mesmo de jornais de TV omitem, talvez por seguirem as normas da desinformação (também conhecida como contra informação – mais detalhes com o papa) ou, mais provavelmente, por ignorância mesmo.

A explicação de Juca (que transcrevo sem o mesmo rigor e paixão) começa por desautorizar esses que pedem a investigação “dos dois lados” na história da repressão. Como dois lados? Um dos lados foi vencido, censurado, torturado, aprisionado, exilado e, não raramente, assassinado. Que verdade se pode buscar desse “lado”? Que mataram algumas pessoas? É verdade. O cap. Lamarca mesmo atirou contra um guarda, durante um assalto, lembro bem disso, e o matou. Mas Lamarca foi caçado e morto. Que mais se pode querer fazer? Nada. Não há nada a fazer. Esse discurso não passa de cortina de fumaça destinado a encobrir torturadores e similares ainda vivos.

O segundo ponto é que esse segundo “lado”, o dos vencidos, era em número de 200 ou 300 pessoas, divididas em inúmeros grupelhos, que combateu um exército não raro apoiado por exércitos vizinhos e com assessoria especializada. Isso faz parte do jogo. Saber se eles foram heroicos ou inconscientes (ou ambos, o que me parece mais provável) é outra história. O essencial, nesse ponto, é que esses guerrilheiros combateram um governo ilegítimo, saído de um golpe militar contra instituições democráticas, contra um presidente constitucional, contra as eleições que viriam em 1965.

A esses guerrilheiros (e não terroristas: o terror foi praticado, no caso, pelo Estado), e essa parte agora é minha, por mais que se possa discordar deles, devemos o pouco de honra nacional que ainda existe por aqui. Depois vieram a igreja (d. Evaristo Arns), as reações internacionais (Direitos humanos etc.), os partidos políticos constituídos, Ulysses Guimarães e a Anistia.

Essa conversa de “dois lados” hoje é insuflada em grande medida por ex-esquerdistas de salão, que hoje consideram mais chique, ou oportuno, desenvolver um discurso de direita, em certos casos de extrema direita.

Os arquivos que estão fechados a sete chaves são os das Forças Armadas, os cadáveres que não se sabe onde estão são de guerrilheiros, o que se precisa saber sobre tortura é segredo de torturadores e não de torturados. Estamos na ordem dos fatos, não da linguagem – aqui parafraseando Vidal-Naquet. Não é questão de partido ou outro.

2. Direitos humanos

Esses desqualificados que a TV abriga em quantidades industriais costumam convencer uma parte da população, justamente uma pouco protegida, de que o mal do mundo são os direitos humanos. Que sem eles a gente podia torturar os bandidos na boa, jogá-los na masmorra e esquecer, etc.

Ora, essas pessoas não sabem ainda que são elas justamente as vítimas desse tipo de pensamento. Outro dia um chofer de taxi (eles têm solução para tudo), à parte defender a pena de morte, discorria sobre o mal dos direitos humanos. Tudo bem, chofer não tem outra coisa a fazer a não ser guiar e falar. Mas me chamou a atenção que ele era preto, retinto. Se não fosse pelos tão mal falados Direitos Humanos, pelo Iluminismo, por 1789, ainda estava no cabo da enxada e debaixo de chicote.

Essa é a questão dos Direitos Humanos: o que somos hoje, com todos os males, devemos a eles. É sobre essa famosa declaração que ainda hoje estamos sentados.

Coisa que esses desqualificados da TV jamais explicarão a seus espectadores, digo, vítimas.

3. Cidade Suja

Aparentemente, a CET de São Paulo entregou os pontos: não sabe mais como piorar o trânsito.

Em vista disso, decidiu dedicar-se às artes plásticas, às intervenções. Em pontos inesperados, no meio da rua, junto a esquinas, de maneira aparentemente aleatória, pinta superfícies azuis, delimitadas por uma faixa branca. Para que fique claro o caráter de intervenção, plantam pesos com faixas pretas e amarelas.

Talvez seja um novo modo de diversão: talvez esperem que os carros distraídos invadam suas obras para produzir mais eventos (ferro esmagado, talvez algum sangue,etc.).

É uma ideia. Não me parece a melhor para esta instituição tão democrática, que há décadas se esforça para piorar o tráfego onde ele ainda flui. E isso independe do partido que esteja eventualmente no poder: é uma conspiração dos engenheiros, que há alguns anos ainda não sabiam como fazer alguém entrar numa via de movimento rápido sem produzir magistrais engarrafamentos.

PS: a foto que ilustra o post é uma das caixas da Retrospectiva Sérgio Sister, na Pinacoteca. Dia 21, quinta, lá mesmo, tem o lançamento do livro dedicado ao pintor.


O braço no rio
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Inácio Araújo

 

Eu posso compreender um acidente em que alguém tem o braço arrancado, por brutal que seja.

Alguém faz uma besteira, dessa besteira deriva um erro, desse erro um acidente…

Tenho mais dificuldade em entender que o responsável não pare e dê auxílio à vítima. Mas o pânico pode explicar esse tipo de atitude, sim.

O que permanece incompreensível, para mim, é como alguém, tendo ficado com um braço em seu carro, se dispõe a procurar um rio para descartá-lo.

Ou: o que se passa na cabeça da pessoa?

Imagina que está se desfazendo da “cena do crime”?

Acha que braço é uma bobagem, quando se trata de outros braços que não os seus?

Não sabe que braços podem ser reimplantados? Que isso hoje é tradicional?

Trata-se de uma somatória de burrice, autossuficiência e ignorância?

De boçalidade, em suma?

Isso para mim é incompreensível.

Também é a indignação das pessoas diante da notícia (ou constatação) de que o motorista em questão não estava bêbado.

Faz alguma diferença?

Nenhuma, o braço foi arrancado por alguém num carro, sóbrio ou não.

Do ponto de vista estritamente criminal, me parece (não entendo nada de leis, é só uma impressão) que se alguém faz esse gênero de coisa em estado de sobriedade é mais grave do que em estado de embriaguez…

No entanto, parece que existe uma corrente muito forte disposta a acreditar, e difundir, que o mundo mental não existe, que não existe senão o cérebro, entidade neurológica, com seu funcionamento “normal” ou “afetado”.

As drogas são, para esses, algo indispensável para explicação de qualquer fenômeno.

Por fim, às vezes tenho a impressão de que a imprensa publica qualquer coisa. No Uol mesmo, li que o criminoso se declarou arrependido.

Ah, é? Notícia seria se ele dissesse que estava orgulhoso da pontaria.

O terror de rua

Estava saindo da Pinacoteca, quando vejo uma rádio patrulha parando e indo, revólver em punho para cima de um cara que tomava conta de uns carros estacionados.

Eles não foram violentos. Acho que a palavra “persuasivos” define melhor o caso. Tinham medo? Me parece possível (mas disfarçavam bem…)

Em todo caso, o que havia feito o fulano? Nada, exceto guardar carros e ganhar uns trocados com isso.

Não era justo o cara ter que mostrar o dinheiro, esvaziar bolsos, entregar documentos, ser examinado de alto a baixo sem que houvesse um indício sequer, exceto o fato de estar ganhando seu dinheiro honestamente, de criminalidade.

A suspeita, no caso, consistia estritamente em ser pobre.

Nós aqui da classe média deixamos de ter medo da polícia desde o fim da ditadura. Mas para o pobre as coisas são escandalosamente penosas o tempo todo. A polícia continua a ter um papel importante nisso.

Uma abordagem dessa me parece ser um convite à criminalidade. Pelo menos porque o cara raciocina que, se faz uma coisa direita ou se assalta dá mais ou menos no mesmo: no segundo caso pelo menos ele saberá porque está sendo oprimido.

E pode se armar, ir para coisas tipo PCC e de vez em quando praticar um tiro ao alvo que tem por alvo uns polícias


Marginais da história
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Inácio Araújo

De repente, sem mais nem aquela, me pus a pensar no Júlio Bressane. Não tanto na pessoa física, mas no autor que se reivindica “experimental” e jamais “marginal”.

Sim, admitamos: nem todo marginal é experimental, mas o experimental é um marginal, sim, porque a começar por Bressane não têm lugar na história do cinema brasileiro, tal como foi escrita, tendo por princípio o Cinema Novo.

Não foi por nada a celeuma que se abriu em dado momento, quando Nelson Pereira dos Santos disse que não era um cineasta do CN, que sua geração, com a qual se identificava, era a dos anos 50 (do século 20, entenda-se).

Todo o entendimento que tínhamos formado, a linha reta que ia de Mauro a Glauber, passando por Nelson (ah, a câmera emprestada pelo INCE para “Rio 40º.” e tal) de repente ficou em suspenso.

Nosso entendimento se embaralhou. A intervenção de Nelson claramente mostra que a história do cinema brasileiro como a concebemos não dá mais conta do que é esse cinema.

Há, digamos assim, um excesso de marginais. Eles transbordam. Estão na Vera Cruz e na Atlântida, nos anos 50 e nos 20, mas também nos 70 e 80.

A escrita dessa história se deu a partir da rejeição, da exclusão de partes. Isso se deu por motivos ideológicos (o surgimento do CN), mas também econômicos (Embrafilme). Se deu, finalmente, porque a ausência de tradição até ali, o começo dos anos 1960, tinha muito a ver com a impossibilidade de ver (ou rever) os filmes.

Desde que hoje temos condições de preservação e restauro mais propícias, tende a se tornar cada vez mais vital uma revisão geral da história.

Recebo emails de Denise Saraceni dizendo “Queremos ver os filmes de Paulo Cezar Saraceni”. Mas não só. Há pouco, na Mostra de Cinema SP, revi apenas o final de “Os Deuses e os Mortos” do Ruy Guerra, e é uma beleza, mas está precisando de um restauro urgente.

Nesse setor, claro, sempre se corre contra o tempo. Mas as coisas caminharam bem nos últimos anos.

Agora, dos chanchadeiros a Khouri, de Bressane a Oswaldo de Oliveira, etc., etc. Há muito a desmarginalizar nessa história. Não é que haja má vontade com todos esses e outros mais. A questão é: encontrar seu lugar, redispor os filmes na história e a história nos filmes.

Torcidas, marketing e antimarketing

Falei outro dia da relação entre torcida e marketing. O do Corinthians me parece genial. A história do “bando de loucos”, por exemplo, é supermobilizadora, mas é preciso controlar certos efeitos, a tendência de parte dos torcedores a não abstrair, a tomar a expressão pela letra e sair fazendo maluquices.

A questão palmeirense é o perfeito oposto. Claro, existe a questão sazonal do time que há muito tempo não ganha um título de expressão maior, que foi rebaixado e tudo mais.

Mas a agressão a jogadores me parece que tem origem muito mais no marketing palestrino. O Palmeiras se nutre, e vende essa idéia (quer queira, quer não) ao mundo: é um teatro de gladiadores. Fora do campo: só há facções se pegando etc.

Até pouco tempo, o marketing do Palmeiras, pelo lado positivo, era o Felipão. Alguém que estava acima das divisões infinitas entre os conselheiros. Antes tinha sido a Parmalat: havia como que uma intervenção no clube, então as coisas iam bem.

Como no Verdão o conselheiro A prefere que o time vá ao inferno do que ver o B virar presidente, por exemplo, não é de estranhar que torcedores vivam agredindo jogadores.

E quanto mais agridem, menos jogadores querem ficar no clube, é claro, as coisas mais se complicam e os diretores mais brigam.

A questão: que idéia pretende esse clube vender de si mesmo? E que imagem?


Rescaldo do Oscar
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Inácio Araújo

 

Feitas todas as contas, os filmes que mais me interessaram no Oscar foram “Lincoln” e “A Hora Mais Escura”.

Os dois foram bem queimados.

Tenho para mim que o resultado do Oscar pode ser bem secreto, mas talvez nem tanto.

Será que Michelle Obama anunciaria “A Hora Mais Escura” como filme ganhador?

Digo isso porque, embora matar Bin Laden tenha sido um triunfo da política internacional de Obama, no filme o que existe é continuidade: uma caçada que começa com Bush e termina com o presidente seguinte. A diferença é que não se pode mais torturar com Obama.

Não li o artigo de Zizek onde ele diz que o filme de certo modo normaliza a tortura. Pode ser. Digamos que os americanos usam técnica mista, como se dizem arte. Porum lado existem informações que vêm de torturados, sim. Por outro, existe um trabalho de dedução (e obstinação, claro) que se devem sobretudo à heroína.

Essa é uma dúvida infernal a que, nós, no Brasil, somos submetidos desde sempre (não sei se mudou recentemente, mas o método básico de investigação policial no Brasil era a tortura).

Então, não vou entrar na questão moral que envolve o filme. A Bigelow é, me parece, quem representa o lado republicano de Hollywood, de todo modo. Agora, tem talento. Tem força. Seus heróis são batalhadores solitários. Como a garota do FBI. Ela tem uma vingança pessoal a levar adiante, é verdade. Mas passa ao largo de tudo. É uma espécie de John Wayne do século 21.

O filme é, no mais, um faroeste do século 21. Bem mais faroeste do que o do Tarantino, que é maneirista, interessante, simpático, mas acho que não vai tão longe.

A sequência noturna final me parece muito forte. É a que eu mais retenho. As cenas de tortura (para quem não viu: não são bem de tortura, mais mostram o torturado do que outra coisa; a parte da tortura, perto do que conhecemos por aqui, é água de rosas) hesitam entre afirmar o profissionalismo do torturador e o simples caráter sádico indispensável a todo torturador. Não há torturador sem sadismo, sem sadismo muito pronunciado.

É, com “Lincoln”, o filme que eu quero rever já. Não sei se vai dar. Será no DVD, certamente.

Já o “Argo” será um filme divertido sempre, quase um “Nothing Hill”, desses que passam a toda hora na TV, você vê uma parte hoje, outra daqui a um mês e tudo bem.

O “Amor” é um filme interessante. Talvez seja complementar em relação a “Hora Mais Escura”. Parece maluquice dizer isso, admito. Vou tentar melhorar: o que seria de “Hora Mais Escura” se buscasse elidir a tortura? Seria menos verdadeiro? Talvez não. A Bigelow, que é uma brutalista, chega e diz: como a heroína, você aí sentado vai ver o horror.

O Haneke, que só vê o pior do homem, desta vez me surpreendeu. A dedicação e o amor do casal, a companhia, até o hábito de tomar ônibus para voltar do teatro (ah, lembrar dos transportes públicos franceses me fazem chorar quando entro no metrô daqui), tudo isso me surpreendeu muito.

Mas o final, a cena da morte, aquela coisa angustiante, interminável. É como se de repente o velho Haneke ressurgisse, garras de fora, não para falar da intrínseca dor de estar vivo, nem da falta de sentido de nossas vidas… Não: é o pior, o mais baixo, que aparece: aqueles pés frágeis que se debatem por um tempo que parece infinito remetem à determinação do homem que a mata. Essa é a coisa mais terrível, a mais dolorosa.

Quer saber? Talvez Haneke tenha mesmo razão. Ao menos no caso. Mas não gosto dele. Continuo a não gostar. Não como cineasta, mas como idéias.


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