Blog do Inácio Araújo

Arquivo : February 2012

O Oscar e o All Star
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Inácio Araújo

Domingo foi dia de dois eventos-chave nos EUA : o All Star Game do basquete e o Oscar, do cinema. Na verdade, um não tem muito a ver com basquete e o outro não tem muito a ver com cinema.

O que importa, em ambos os casos, é antes de tudo a festa, a publicidade, a promoção das estrelas. Ambos são, de resto, truncados a toda hora por comerciais, o que é um pouco irritante.

O Oscar tem a vantagem de ser uma festa emocional. A paixão é o que domina, as pessoas, aquilo que elas são do ponto de vista profissional está, afinal, em jogo. Nesse sentido, é como uma final esportiva, o que o All Star Game não é: não há descontração possível no Oscar, exceto a que vem do apresentador.

Outra diferença é que o Oscar cria estrelas instantâneas. Eventualmente não duradouras, mas isso é outra história. “O Artista” premiou um diretor e um ator de que ninguém havia ouvido falar antes. Não importa, Hollywood se apaixonou por eles.

Para este ano, não há dúvida de que a polaridade, nos grandes prêmios, era entre “O Artista” e “A Invenção de Hugo Cabret”. Penso que era uma grande oportunidade de o Oscar consagrar o futuro industrial do cinema, isto é, o 3D, mas prevaleceu um gosto pelo anacronismo,por essa evocação do cinema mudo.

Não creio que o “O Artista” venha a ser um novo “Cantando na Chuva”, em todo caso. Eu, pelo menos, não tenho a menor intenção de revê-lo. “Hugo Cabret” me pareceu mais ousado, mais moderno, mais interessante também, com uma dramaturgia remetendo à primeira Revolução Industrial e sua fábula conduzindo ao primeiro cinema, a Méliès.

Achei que era a grande chance de celebrar a nova tecnologia. Mas isso importa pouco, porque o Oscar é o território da paixão. Quem escolhe o faz com o coração. E quem perde fica chorando a injustiça, etc. No ano que vem recomeça tudo.

O fato é que em 2011 tivemos um ano interessante. Os filmes eram variados. Do mais ousado (“A Árovre da Vida”), a filmes que me parecem significativos, como “Os Descendentes”, “Hugo Cabret”, “Meia-Noite em Paris”, “Cavalo de Guerra” estiveram presentes.

Havia também, é claro, esses filmes muito fracos que aparecem regularmente, como o filme das empregadas de Jackson, mas que entrava com um belo elenco. No entanto, na maior parte dos casos, filmes secundários, como “A Dama de Ferro” ou “Albert Nobbs”, ficaram limitados a seus nichos. No caso, aliás, deu Meryl Streep; eu na verdade preferi a Glenn Close. Mas isso é um detalhe.

Na categoria atores, onde não havia algo assim tão especial, dar o prêmio a esse Jean DuJardin me pareceu um equívoco. Tenho a impressão de que não leva a nada, de que as coisas ficam por aí com ele. E havia a oportunidade de consagrar o George Clooney, que é uma espécie de Cary Grant do século 21, ou mesmo Brad Pitt, que estava sensacional em “A Árvore da Vida”. Seria melhor para Hollywood. Mas quem diz que Hollywood escolhe sempre o que é melhor para ela?

Um Crédito

A respeito da idéia de que “O Artista” é um filme sobre a crise e sua superação é obrigatório dar um crédito.

É claro que muita coisa que escrevo vem de conversas, sobretudo com a Sheila Schvarzman. Mas isso que ela disse, e que me parece muito pertinente, bem, isso é 100 por cento dela e não seria direito negar.

Não usei aqui, mas no comentário que fiz para a Folha. Lá, claro, não podia dar esse crédito. Aqui, está dado.


Lições do mau cinema
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Inácio Araújo

A vantagem dos maus filmes é que podem às vezes nos mostrar mais sobre o cinema do que até mesmo os bons, os impecáveis.

“Histórias Cruzadas” me pareceu um muito mau filme, entre outras coisas porque as mulheres brancas são, de um modo geral, apenas pessoas muito más, sem coração, essas coisas. A julgar pelo filme, nasceram assim, reacionárias e bestas.

A mocinha, ao contrário, é cheia de coragem, embora essa coragem não enfrente nenhuma represália digna de ser chamada assim. Ela é como uma criança impune para as mulheres de Jackson, Mississipi.

No mais, pelo que entendi, se apropria das histórias das empregadas negras e fatura bem faturado em cima. O risco fica com as negras, os méritos vão para ela, basicamente.

Nada se diz de KKK. Nem mesmo de movimentos de direitos civis (isto é: se diz, mas de forma muito sumária; isso não seria um defeito, desde que o filme nos informasse indiretamente sobre essas tensões). No mais, é como se aquele comportamento das mulheres brotasse da terra, e não de um modo de ser sulista, de fato segregacionista, escravista, tudo mais.

É como se simplesmente não houvesse uma sociedade ali, mas apenas um clube feminino destinado a maltratar as empregadas por prazer.

Bem, lembro de outro filme, que é “Tudo que o Céu Permite”, de Douglas Sirk. Ali estamos nos anos 1950, numa pequena cidade, e Jane Wyman se apaixona por um jardineiro (nada de negro, se isso acontecesse haveria linchamento direto).

A sociedade em torno vai fazer uma pressão enorme e rejeitá-la. Isso ela encara. Mas há os filhos, que não suportam a situação. No entanto, nenhum deles aparece como vilão ou parece detestar a mãe. Simplesmente fazem parte daquele mundo, recebem as pressões e as descarregam também.

Com umas poucas pinceladas, o tipo de sociedade de uma cidadezinha americana é magistralmente pintado por Sirk.

E, claro, sem as demagogias muito contemporâneas, tais como acabar o filme com aplausos para personagens que enfrentam adversidades. Os personagens não buscam aplausos, está claro. O aplauso é para a platéia, busca um efeito de contágio.

Por outro lado, leio uma entrevista da Ana Paula Sousa na Ilustrada com o produtor de “A Árvore da Vida”. Vale a pena. Ele diz que os produtores estão acabando com o cinema: gastando fortunas à toa, em coisas como limusines, champagne e salários descomunais. Gastam 100 onde ele gasta 10. Daí precisam fazer filmes tolos para atrair plateias enormes.

Que os produtores atuais são, em geral, nefastos, nenhuma novidade. São negociantes. Não entendem de cinema como os velhos magnatas e nem estão aí para o desgaste que causam.

Mas a proporção absurda de gastos é novidade. O dinheiro não está na tela (de fato, eu vivo me perguntando onde estão os alegados não sei quantos milhões gastos).

Podia ser uma lição, de resto, para os produtores aqui do Brasil, que andam fazendo mais ou menos a mesma coisa. Acham bonito queimar dinheiro. Isso também impressiona a mídia. É uma geração de negociantes e profissionais, basicamente.

Eu sou ultrapassado, por certo, sou do tempo que as pessoas se metiam nisso porque lhes parecia poético, ou por achar que tinham alguma coisa a dizer. Coisas que são, tenho a impressão, as que menos contam em inúmeros casos.


Vaias para a Aplauso
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Inácio Araújo

Na época da 35ª. Mostra, por ocasião da entrevista coletiva, o diretor da Imprensa Oficial foi pródigo num blablablá segundo a qual a Coleção Aplauso não tinha acabado coisa nenhuma, que ia ser reformulada, que agora os biografados teriam orgulho das biografias, etc. e tal.

Bem, ficou o compromisso. E nada. Nada, literalmente nada rolou.

Só para constar, não me lembro de biografado que tivesse ficado envergonhado das biografias. Até porque eram eles próprios que escolhiam quem escreveria sobre eles.

Ponto dois: a coleção não era só de biografias. Tinha roteiros, textos críticos e até um romance meu entrou lá.

Ponto final: após a cascata, nenhuma manifestação de que a Aplauso voltaria, fosse como fosse.

É uma lástima, porque era uma fonte de documentação relevantíssima sobre a vida cultural da gente.

Então vaias não para a Aplauso propriamente, mas para esse cara que entrou na Imesp.


Os filmes de esporte
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Inácio Araújo

Esse enigma segundo o qual nós temos futebol mas não fazemos filmes de esporte talvez seja o mais falso mito que corre sobre o cinema.

Vamos relevar o fato de que, hoje, quem tem futebol não é bem o Brasil. É o Barcelona. Mas não é o que vem ao caso.

Acabei de ver “O Homem que Mudou o Jogo”, da série Oscar.

Bem, trata de beisebol. Quem entende de beisebol aqui? Quase ninguém. Eu, pelo menos, não.

Mas o manager do time enfocado tem o hábito de não ir ver os jogos. De maneira que a gente só vê uns fragmentos pela TV. E sabe, intui, quando o jogador faz algo certo ou não. Não é difícil em qualquer esporte ou atividade humana em geral.

Mas “O Homem que Mudou o Jogo” não trata de beisebol, a rigor. O jogo poderia ser qualquer outro.

É mais um filme sobre a luta do homem contra a adversidade. Não nos termos metafísicos de Fritz Lang.

Mais simplesmente, trata-se de montar um time tendo pouco dinheiro, quando outros times têm muito dinheiro.

Que fazer?

Eis a luta que o filme procura mostrar de maneira bem competente, bem agradável. Com pouco sentimentalismo, o que é raro nesse tipo de filme.

Acho que essa história de país do futebol bloqueia os nossos filmes de esporte, na verdade. A mitologia sufoca.

Quando passo na marginal vejo o belo estádio de beisebol que existe ali. Nunca entrei para ver um jogo. Quase todo mundo que joga é japonês ou coreano. Me parece que daria um belíssimo assunto, misturado, claro, com Bom Retiro, Liberdade e tal.


Algo mudou no Oscar
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Inácio Araújo

Algo mudou no Oscar, e não fui eu. Alguém caiu em si e percebeu que a estatueta estava longe, muito longe, de ser disputada por, pelo menos, alguns dos melhores filmes do ano.

E este ano os filmes que vejo, de um modo geral, são todos dignos. Pode-se gostar mais de um ou de outro, mas a lista de dez não faz vergonha.

Não há filmes do “gênero Oscar”, isto é, que só existem em função do prestígio, do prêmio. E, me parece, não se corre o risco de um “Quem Quer Ser um Milionário” ou aquele musical chato, ou aquele “Crash” que não é o do Cronenberg, enfim, filmes meio nulos, ganharem.

Acho que irá muito de gosto ficar com um ou com outro. Mas pela primeira em vários anos eu vejo a lista e fico indeciso.

Por que não “Hugo”? Mas “Os Descendentes” é muito original e sensível na captação de certo modo do mundo contemporâneo. “A Árvore da Vida” é “A Árvore da Vida”: já conversamos a respeito.

Etc.

É engraçado porque há quem ache, quando eu falo mal do Oscar, que eu quero ver Hollywood pelas costas e tal e coisa. Não é bem isso. O Oscar é o prêmio mais popular que existe. Os espectadores acham que se está no Oscar (não precisa nem vencer) é bom, é parâmetro de bom.

Então o prêmio não pode se desmoralizar elegendo aqueles “filmes de Oscar”, que só existem para e pelo Oscar.

É ótimo que desta vez não seja assim, que dê para lembrar como era há uns anos atrás, quando se comentava, debatia, torcia, ou quando a gente se revoltava quando um filme ganhava injustamente, etc. É assim que tem que ser.


“Hugo Cabret”, um grande Scorsese
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Inácio Araújo

Não me lembro de ter visto um filme tão apropriado ao 3D quanto “A Invenção de Hugo Cabret”.

Ok, pode-se pensar em “Avatar”, mas aqui o registro ficção científica está fora. Não há lugar para grandes voos (literalmente).

Mas tenho a impressão de que Scorsese fez um belíssimo filme. Porque a história do menino que vive numa estação de trem, ora ajustando os relógios da estação, ora roubando umas coisinhas, tem um tanto de David Copperfield, um tanto de Jean Valjean, um tanto de fantasma da Ópera.

Mas, sobretudo, um tanto de Scorsese. Ele não era órfão, como o menino. Mas era pobre, num ambiente hostil, e o cinema foi, segundo ele, sua salvação.

É um pouco essa a história que se narra. Então temos um 3D “normal”. Sem efeitos, digamos, especiais. E no entanto, o 3D está todo lá.

Inclusive nesse tom onírico que as coisas ganham no 3D e em que Scorsese parece ter investido bastante.

É um filme sonho, em que tudo se sincroniza (pois de relojoaria, de mecanismos, é que se trata): o presente do 3D e os primeiros filmes se mostram tão mágicos uns quanto outros.

Acho que isso no filme é fundamental: afirmar essa capacidade de maravilhar que o cinema tem, que precisa ter para existir. Pode maravilhar com truques ou com idéias, tanto faz (em geral o truque já é uma idéia), mas tem que maravilhar.

Vai ganhar o Oscar? Não sei: enfim, este ano, há um grupo de muito bons candidatos. Volto ao assunto loguinho.


O segredo da porta fechada
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Inácio Araújo

Eu costumava rir com as histórias russas, cujo passado mudava conforme a necessidade de Stalin e seus epígonos. Não só eu, é verdade. Demorou para que compreendêssemos que o passado é a coisa que mais muda.

E acho que Roterdã, com sua mostra atrevida da Boca do Lixo, pode contribuir para isso. É uma chance de ouro para historiadores envergonhados.

Porque alguns dos cineastas que lá estavam têm direito a uma portinhola na história do nosso cinema: a de Rogério Sganzerla é maior, depois vem a do Khouri, e a do Mojica, e a do Carlão, e a do Candeias, por fim, abrindo-se nos últimos tempos, a do Callegaro. São portinholas.

João Silvério Trevisan, Jean Garrett, Cláudio Cunha, Ody Fraga, para ficar com os que tiveram filmes no festival, nem pensar. Só entram aqui por curiosidade.

Como bem lembrou Gabe Klinger, não são os únicos: há Guilherme de Almeida Prado, por exemplo. E Osvaldo de Oliveira, certamente. Há muitos outros.

O fato é que a história do cinema brasileiro conta-se a partir do eixo Cinema Novo/Embrafilme. Por isso eu uso a expressão portinhola: não havendo como encaixá-los nessa linhagem, só resta abrir umas notas de rodapé.

Mesmo a Palma de Ouro de “O Pagador de Promessas” não é mais do que isso, um acidente, uma nota de rodapé.

O que a mostra de Roterdã deixou claro é que se trata de outra tradição, de outro caminho. O caminho “artístico” do CN e o “sério” da Embrafilme só podem enxergar a Boca do Lixo mesmo como uma perversão.

Não era em outra coisa que pensavam Luis Carlos Barreto, Sonia Braga e a comitiva que foi a Brasília pedir mais censura contra as produções Boca do Lixo, em dado momento. No momento dos militares, fique claro.

E estavam certos em pensar em perversão.

O CN se quis mais europeu, mais Rossellini. A Boca do Lixo nasceu mais americana, mais Nouvelle Vague.

Cinema comercial. Não eram outra coisa “O Bandido”, “A Mulher de Todos”, “O Pornógrafo”, “As Libertinas”, “À Meia-Noite Levarei Sua Alma”, “Meu Nome é Tonho”, etc.

Havia também os miúras, como “A Margem” e “Orgia ou O Homem que Deu Cria”, entre outros.

Havia muito presente a idéia de filmes para encher os poeiras e serem esquecidos. A parte de serem esquecidos supõe um certo charme de Rogério Sganzerla, que criou a frase. O essencial nela é o seguinte: o cinema brasileiro será popular ou não será.

Bem ou mal (mal, quase sempre) esse viés desenvolveu-se na Boca do Lixo. Não importa que os filmes já não tivessem muito a ver com a proposta dos primeiros realizadores implicados.

Mas que se criou um ciclo de filmes autosustentável, para usar uma expressão agora corrente: que, graças às leis de obrigatoriedade, se garantia pela simples presença das platéias.

Algumas revisões

Alguns dos filmes vistos ou revistos em Roterdã:

“O Império do Desejo” – mudou um pouco. O lado iconoclasta, provocativo, que tinha, hoje interessa menos; cede à tremenda informação que o filme nos dá sobre alguns usos e costumes não só de comportamento como políticos nos anos 1980. Lá estão maoístas, direitistas, oportunistas diversos, hippies e capitalistas. O personagem do canibal que a todos deglute é absolutamente exemplar. Um filme precioso de Carlos Reichenbach, a colocar na lista dos melhores do nosso cinema. O pessoal de Roterdã lotou a sala e acho que achou mais ou menos a mesma coisa.

“A Margem” – continua o que era: para mim, o segundo melhor Candeias, depois de “Tonho”.

“A Opção” – continua o que era: um filme ruim. Para mim, o problema duplo de Candeias, a partir de certo momento, foi: 1. a necessidade de fazer “social” (de esquerda); 2. uma autosuficiência que o levava a pensar que podia fazer tudo (fotografia, montagem, roteiro, produção, direção) e com cada vez menos dinheiro.

“Snuff – Vítimas do Prazer” – acho, e o Júlio Bressane (que estava lá) também, o melhor filme do Claudio Cunha. Essas coisas que implicam brutalidade, é nelas que CC se dá muito bem. Vi o filme no fim de 1979 e foi o brasileiro, na época, que mais me impressionou. Resiste bem. Já “Oh! Rebuceteio” é uma paródia de “Oh! Calcutá” que interessou bastante, acho que pela presença de certo humor no sexo explícito, à platéia que estava na Holanda.

“O Pornógrafo” – sempre atualíssimo e, mais do que isso, divertidíssimo.

“Orgia” – o mais radical, expressa muito a radicalidade antigoverno, anti-acomodação daquele momento (1969, por aí). Trevisan, aliás, continua igual. Quanto ao Cinema Novo, o filme provoca: Trevisan não gosta nada. É a vertente mais política do grupo e do que foi a Boca.

Não revi o Khouri, nem o Mojica, nem o Sganzerla, que já vi muito e recentemente. Não vi “Fuk Fuk à Brasileira”, do Jean Garrett. Ele merecia ter lá algo como “A Mulher que Inventou o Amor”, mas não foi possível, por falta de cópia, acho.

Vi apenas um fragmento do filme do Ody. Nele, há um homem com um pênis na cabeça e outro no lugar habitual. Parece bem humorado. Mas não gosto do cinema do Ody, acho que não começaria a gostar agora.

Abrir a porta

Me parece mais do que hora de, finalmente, se partir para compreender esse cinema de imensa diversidade, de altos muito altos e baixos deprimentes, mas que é preciso parar de ver como um desvio. Ele está aí, existe, precisa ser visto e revisto.

Acusá-lo de “cinema comercial” é retomar a mesma acusação que se fazia a Hitchcock até que virasse o Hitchcock que hoje conhecemos. Com o perdão da comparação.

A questão é: ser comercial não é um pecado.

Depois, há a degeneração. Como esse cinema vai piorando em condições de produção. Por quê? Há toda uma série de indagações que ele nos faz. Deixá-lo de fora não ajuda nada, e, pelo contrário, atrapalha à beça.

As trevas e seu reverso

A propósito, a Versátil está lançando “Quando Desceram as Trevas” (Fritz Lang), “Madame de…” (Max Ophuls) e “Os Ambiciosos” (Buñuel).

Indispensáveis.

Há também “Os Visitantes da Noite” (Marcel Carné). Esse eu posso viver sem.

Post-scriptum

A imagem que ilustra o cabeçalho do post foi tirada so site O Cinema da Boca do Lixo, com diversas fotos tiradas por Ozualdo Candeias nos anos 1970-80. É um documento obrigatório para quem quer saber o que foi a Boca.

 


Nunca mais
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Inácio Araújo

Eu devia estar falando de Roterdã, de como com uma palavra (“Você!”) o Mojica galvanizou uma platéia, de como Gabe Klinger falou sobre a felicidade de apresentar “O Império do Desejo”, o filme do Carlão Reichenbach que foi programado em pessoa pelo mítico Hubert Bals, mas nunca exibido, porque não havia cópia legendada. De como, aliás, “O Império” teve sessão lotada, sold out, na linguagem universal dos vendedores de ingressos, de como o “Oh! Rebuceteio” do Claudio Cunha foi visto sem nenhum preconceito e com atenção pela platéia. E houve ainda, para muitos convidados, a felicidade e surpresa de descobrir, numa tacada, as muitas virtudes de “O Pornógrafo” do João Callegaro (Júlio Bressane entre eles), a radicalidade de “Orgia” do João Silvério Trevisan, a poesia do melhor Candeias, o de “A Margem”. Quase todas coisas desconhecidas fora do Brasil (e mesmo no Brasil).

Mas o que eu tenho de falar, primeiro, e infelizmente, é da viagem de volta.

Posso começar pela de ida, pela KLM, com suas sete horas de atraso. KLM que, talvez nem todo mundo saiba, hoje pertence à Air France. Quatro horas, primeiro, sob a alegação de que o avião teve de ser trocado em Amsterdã. Ok. Mas depois que todos já estavam dentro do avião, mais três horas de atraso, porque o comandante detectou um problema técnico que, caso não fosse resolvido, a gente ficaria em São Paulo mesmo.

Acabou que fomos.

Mas perto da volta isso parece brinquedo. Saí de Amsterdã num voo para Paris, de onde sairia o avião para o Brasil. Saiu. Com uns 20 minutos o comandante avisa que teremos de voltar por problema técnico. A isso se segue um monte de voltas perto de Charles De Gaulle, para jogar gasolina fora e um pouso bem pouco ortodoxo que, garanto, não se deveu a inabilidade do piloto.

Bem, para encurtar a história: voo no dia seguinte, no mesmo avião, prometido para 14h30. Saiu três horas depois, e não sou eu que vou acusar o comandante de frescura. O cara deve ter checado até a calibragem dos pneus, porque se o avião sai para uma viagem de 12 horas e o motor estoura em 20 minutos, não entendo nada disso, mas me parece que há algo preocupante no sistema de manutenção da companhia, não?

Ainda mais quando se recorda que essa companhia, ainda outro dia, teve um desastre horroroso, cuja culpa conseguiu jogar nos ombros do comandante, como se esse não conseguisse entender os comandos, e não como se os comandos tivessem se tornado ilegíveis.

Bem, a Air France é uma tradicional companhia e me parece incompreensível que esteja sendo sucateada dessa maneira. Será que eu tive azar?

Bem, de sorte eu não creio que dê para chamar isso, embora eu esteja aqui e isso não seja assim tão pouco.


Mas o passageiro francês que viajou, as duas vezes, ao meu lado, um simpático passageiro que eu quase chamo de engenheiro (mas não lhe perguntei a profissão), porque vem aqui com frequência trabalhar com energia eólica. Um cara que viaja tanto que viaja até sem bagagem, bem, ele me disse que é raro subir num avião da Air France e não dar algum atraso, algum galho assim.

Culpa da França inteira? Arrisco dizer que sim.

No meu voo, o original, havia um grupo de doze ou quinze homens visivelmente pobres, escoltados pela polícia. Os simpáticos garotos ao meu lado achavam que eram traficantes… O que a TV não faz a nossos cérebros (e à nossa informação)! É quase inacreditável, pois não eram meninos com jeito de tontos, não.

O que eu quero dizer é que a França que eu conheci, que eu amei, onde eu vivi, era uma terra de liberdade, um refúgio dos perseguidos, dos banidos etc. Hoje é a terra que manda imigrantes ilegais embora debaixo de escolta, que nem era a Inglaterra.

Para mim uma coisa vai junto com a outra. Não esticarei o assunto: mas vai até com certa decadência das Ciências Humanas na França atual e seu “fading” no sistema internacional de produção intelectual, onde passou de líder a satélite em uma ou duas gerações.

No mais, para a França restou um grupo de políticos absolutamente lamentável. Ah, é lamentável vê-los fazer uma declaração qualquer. A fascista do Front Nacional me parece, incrível, a única que sabe o que fala (mesmo que seja detestável). Enfim, quem reclama de Lula & Fernando Henrique não sabe o que está perdendo. Não mesmo.

Me pergunto se essas coisas da Air France não têm a ver com isso. Num daqueles hotéis suntuosos onde as companhias nos botam quando dá algum galho, hotéis onde passamos noites terríveis (o pijama foi despachado, entre outros), com cafés da manhã magníficos que simplesmente não se tem vontade nem de olhar, perguntei à moça do balcão se ela teria um comprimido para dor de cabeça.

Em vez de dizer que não ela se pôs a me alertar que eu devia ir ao médico, pois dor de cabeça podia sinalizar o risco de um problema vascular.

Bem, eu ouvi aquilo aturdido. Ela deve ter aprendido isso na televisão. Antigamente os franceses liam Montaigne na escola. Agora assistem os cretinos da TV a falar besteira. Então eu virei as costas, porque não ia lhe dizer que os médicos, eles justamente, recomendam aspirina contra o risco de problemas vasculares.

Bem, desculpem, isso foi longo e, suspeito, chato. Com esse ar final de sermão de igreja. Que fazer? Eu não me sentiria bem se não falasse disso, embora quisesse é dizer o quanto me agradou bem “O Som dos Outros”, do Kleber Mendonça. E ganhou o prêmio Fipresci, vulgo prêmio da crítica.

Voltarei também a ele. Mas, caramba, eu precisava falar dessas coisas. Entre outras coisas porque li aqui e ali coisas como “princípio de pânico” e aeromoças assustadas etc. Não sei. Não vi tudo. Onde eu estava (no poleiro, bem entendido), não houve pânico algum.

A simpática moça ao meu lado, aliás, que veio para o casamento de um parente em Curitiba, nem se deu conta da emergência, só depois do pouso eu lhe contei: ficou mergulhada no livro que lia.

Enfim, uma das razões que eu tenho para falar disso é que a tripulação, os comandantes em particular, me pareceram muito profissionais e competentes, enquanto a companhia me pareceu uma bagunça, cheia de não-ditos, de mistérios e, para resumir tudo, de informações erradas e/ou mentirosas (não me refiro nem ao incidente em si: às vezes é melhor que certas coisas não sejam mesmo ditas).

Mas tenho de dizer essas coisas porque, entre outras, a Air France conseguiu emplacar a idéia de que o avião que caiu por “erro humano”. Bem, tenho a impressão hoje de que erro humano, nas circunstâncias atuais, é subir em avião dessa empresa.

Desculpem dizer: todos lá foram muito gentis, na medida do possível, e todos se desculpavam o tempo todo. Não é isso. Mas o que mais se ouvia, do Oiapoque ao Chuí do avião era isso: Air France nunca mais.

Não conto isso porque, vingativo, gostasse de ver a empresa na falência. Nada disso. É lá que tem, ainda, de longe, a melhor seleção de filmes da aviação mundial. Mas, caramba, os caras estão pegando pesado.


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