Blog do Inácio Araújo

Arquivo : December 2011

Móbiles (e outras coisas)
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Inácio Araújo

Não conheço nada menos interativo do que, digamos, os bichos de Lygia Clark. Eles estão lá, parados, e nós em geral colocados a uma distância colossal, em estado de respeito e reverência. Nem se deixassem a gente tocaria.

Por essas e por outras tenho sérias dúvidas de que nascerá um Chaplin dos games, como quer um cara que deu entrevista na Ilustríssima outro dia.

É certo que o cinema já perdeu o papel de centralidade que herdara do romance do século 19 na constituição dos costumes e hábitos culturais. E parte disso se deve ao fato de que para muitos da garotada essa arte parece uma chatice por ter uma via só.

De fato, os games podem ser mais interessantes para esses. Mas daí a constituirem uma arte vai certa distância que eu não imagino como poderia ser percorrida.

Talvez não seja uma arte o que herdará o papel do cinema. Pode ser, e aí a interação conta, a hipótese de se trabalhar a montagem a partir dos vários universos propostos pelas estações de TV (juntar um fragmento da MTV com outro da Globo e daí ao Datena etc.). Isso pode sugerir um tipo de arte mais ou menos como o móbile, que alguém fará como arte e depois as pessoas podem imitar em casa, etc.

Pode ser que a moda ocupe esse lugar, ou uma arte a surgir, não se sabe. Dizer que são os games, não sei, me parece apenas um palpite.

Morte aos gatos

Numa medida saneadora, um juiz federal decretou que todos os aparelhos usados para tapear as codificações dos sistemas de canais por assinatura estão proibidos. Não só a importação como a venda.

Os usuários desses aparelhos também estão devidamente criminalizados. Segundo a notícia, o prejuízo das operadoras era de R$ 100 milhões por mês.

Muito bem: é a lei e a ordem atingindo não só as favelas, mas também a Net, a Telefônica e sei mais eu quem que faça esse tipo de operação.

Porque agora acabou a desculpa do prejuízo por conta dos gatos. E, supostamente, esses milhões todos serão empregados em diminuir as mensalidades extorsivas que cobram daqueles outros que não usam os tais gatos.

A ver. E esperar.

A esperar

2011 chega ao final. Continuamos à espera do prometido retorno da coleção Aplauso, da Imprensa Oficial paulista. Prometida meio às pressas, é verdade, no improviso, quando o diretor da empresa era prensado devidamente sobre o assunto, na coletiva de imprensa da 35ª. Mostra.

Mas esperamos do mesmo jeito. Ou antes, com um pouco mais de atenção. Porque edições milionárias e/ou para puxar o saco de políticos estão saindo bem saídas.

Bandos bancários

Há gerências de um banco, do Brasil, que, segundo me disseram, adotam o seguinte procedimento: quando a conta bancária está sem uso há alguns meses eles mandam um extrato anunciando que a conta “está desativada”.

Meses (ou mais de ano no caso de que me falaram) eles mandam um outro aviso, agora por telefone, dizendo que o fulano está com um buraco na conta de não sei quantos reais, devido a despesas de não sei bem o quê (de nada, a rigor, já que nesse tempo todo não mandam nem um mísero extrato).

O mesmo banco já me aprontou coisas do tipo, mas não nessa escala (ficou meses sem mandar extrato da conta que eu não usava e depois mandou um cobrando uma bela nota. A pergunta é: por que não mandam logo? Por que não avisam do risco que se corre?)

Alguém conhece histórias semelhantes? Esse tipo de procedimento é legal ou é aplique?

2012

Humberto Saccomandi, que é do jornal Valor, portanto saca dessa área de economia (saca de cinema também, mas isso é outra história), avisa que o ano que vem será duro do ponto de vista econômico.

Espera-se a Europa devagar, e isso afetando o pessoal que vai mais ou menos, ou seja, respingando legal na gente.

Ainda assim, fica o desejo de que a previsão seja pessimista e que o mundo ao menos entre um pouco nos eixos. Para o bem de todos. E também dos amigos.


Kid Kennedy vs. Roda Viva
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Inácio Araújo

Enquanto Roda Vida, na Cultura, sintonizava-se com o lançamento de um livro e com a própria TV (não pública) e entrevistava Boni, ex-diretor da Globo, Kennedy Alencar dedicava seu programa, na Rede TV! (comercial) a divulgar o pouco conhecido deputado Marcelo Freixo, do PSOL do Rio.

Na verdade, nós aqui, fora do Rio, só sabemos de Freixo porque inspirou um personagem de “Tropa de Elite 2” e porque teve de sair por um tempo do Brasil, enquanto esperava ter proteção adequada.

Compreende-se que ele seja tão ameaçado. De repente chega um cara nada dogmático (ao menos nas questões de segurança) e diz que milícias são muito mais perigosas do que esses traficantes de chinelo de dedo apresentados como grande ameaça nacional.

No programa (que pode ser assistido em três partes aqui), ele explica direito por quê. No que é ajudado pelo entrevistador, sóbrio e eficiente. A milícia é no mínimo um caminho para a organização mafiosa. Tem poder político e de corrupção. Os traficantes são pouco mais que pobres coitados. As milícias ainda não foram atacadas no Rio (pode ser estratégico, mas isso é outra história).

Enfim, o cara é interessante do começo ao fim e combativo idem. E íntegro. Não é “divertissement”. O que talvez explique o completo (repito: completo), ensurdecedor silêncio da mídia a seu respeito.

Enquanto isso, na TV pública ouvimos amenidades sobre a TV. Não é que se deva ter sempre programas graves sobre coisas terríveis, mas é que na última segunda-feira o contraste ficou um tanto escandaloso.


2011 – Um Ano de Seca
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Inácio Araújo

Talvez o prenúncio estivesse já no começo do ano, quando o Oscar indicou dez filmes quase todos intragáveis. Mas o que veio depois não foi tão melhor assim.

De maneira que na lista de Dez Mais que fiz para o Uol entrava, felizmente, “Tetro”, que estreou ainda em 2010. Mal cheguei aos dez, ainda assim.

Eis aqui quem eu preferi, com um pequeno comentário:

1. Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami – mais uma afirmação forte de que não somos um, somos múltiplos, cópia e original, duplicações, maridos e ex-maridos, bandidos e mocinhos.

2. Singularidades de uma Rapariga Loira, de Manoel de Oliveira – porque Oliveira abole o tempo, traz o presente ao passado e vice-versa e depois rompe com os dois, se preciso.

3. Tetro, de Francis F. Coppola

4. A Árvore da Vida, de (esqueci quem) – ambos carregam a dor de ser pai e a de ser filho; a dor inevitável.

5. A Pele que Habito,. de Almodóvar – talvez o nome diga tudo: a pele é um habitáculo.

6. Melancolia, de Lars von Trier – o fim do mundo em cada um

7. O Garoto da Bicicleta – porque as cores que eles usam, os contrastes, são fortes.

8. Isto Não É um Filme, de Jafar Panahi – porque era o único filme possível, o único verdadeiro.

9. Rio – uma boa animação.

10. O Palhaço – com altos e baixos, mas me pareceu ter uma energia muito interessante.

Quem quiser brincar de lista manda ver.


Uma bela estréia: Margin Call – O Dia Antes do Fim
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Inácio Araújo

“Margin Call – O Dia Antes do Fim” certamente não muda a história do cinema. Mas: a) é um primeiro filme; b) o diretor e o roteirista são a mesma pessoa.

Começamos, então, com dois bons sinais: neste mar de filmes impessoais a que Hollywood nos acostumou eis aqui um pouco de pessoalidade, de alguém que chega dizendo: tenho algo a dizer.

E tem mesmo. Se a gente comparar o filme de J.C. Chandor com, digamos, o “Wall Street” mais recente de Oliver Stone, ou mesmo o mais antigo, que é mais interessante, fica fácil observar a diferença.

O filme trata de Wall Street. De um grande banco (ou algo assim) que, a horas tantas, descobre´que, de tanto se expor a riscos, está para quebrar. Diz-se que é inspirado na história do Lehman Brothers, mas francamente isso não tem importância.

O que me chamou mais a atenção é que, por uma vez, os seres de Wall Street não são tratados como vilões absolutos fanáticos por dinheiro, dinheiro pelo dinheiro etc. Nisso a coisa é o inverso de Oliver Stone, que em linhas gerais responsabiliza a ganância por todos os males da Terra.

Chandor é mais sutil. A ganância até existe, mas mais do que tudo existe, do ponto de vista subjetivo, necessidade de afirmação das pessoas, seja pelo ganho em si, seja pelo lugar que ocupa na instituição e na sociedade.

Mas é mais uma questão objetiva que norteia o filme: a existência de uma engrenagem voltada à sobrevivência (das instituições, antes de mais nada, e até mesmo contra as pessoas, se necessário). E as instituições financeiras movem-se preferencialmente pelo medo. O pânico fica por nossa conta, nós, os otários, quero dizer.

O filme se passa quase inteiro no edifício do banco. No fundo é como se o mundo exterior não existisse fora daqueles números, papéis e cálculos. No entanto, a engrenagem funciona como um trator, meio incontrolável, e é nessa medida (o ignorar o mundo e o trator) que podemos ver, de tempos em tempos, os personagens dizendo que não têm escolha. Nunca têm escolha – eles se vitimizam, é claro: montam nos bônus colossais, mas dizem não ter opção. Mas isso em parte é verdade, desde que adotemos o ponto de vista deles (isto é, dos seres envolvidos na coisa, não do “mercado”).

É verdade que estamos em Hollywood, portanto é preciso que haja algum vilão. Vilã, no caso: Demi Moore, a srta. Robertson, que demite Stanley Tucci logo na primeira sequência (esse só se ferra, impressionante).

Mas quando os dois se encontram, numa sala, sozinhos (não direi em que circunstância), como que encarcerados, ambos concluem, o lobo e a ovelha, que não têm opção.

Então, à obrigação de criar um vilão, Chandor responde relativizando isso ao extremo. Não há vilões, não há heróis. Não são santinhos, nem de longe, são classe alta ou pretendem chegar lá, dão importância a isso e tudo mais. Mas não serem maus em si enfatiza o fato de haver uma nocividade que está além das pessoas. Estamos mais perto, então, de entender como funciona um sistema, em vez de ficar apontando o dedo para um ou outro “bad man”, ou “culpado” ou algo assim.

Por fim, temos ali um belo elenco, puxado por Kevin Spacey.

E o Jeremy Irons, que é outro gênio, anda numa preguiça infernal: adotou esse tipo de inglês safado e cínico e sobrevive com ele na boa: serve para ser o papa Bórgia ou o papa dos mercados de Nova York.

Duas observações

A primeira é que eu sou um primitivo em termos de internet, não sei nem como responder às intervenções aqui no blog. Mas eu as leio e levo em consideração.

A segunda é que às vezes fico um pouco fora, por diversos motivos: excesso de trabalho, doença, eventual viagem ou, até mesmo, falta do que dizer.

Porque não existe nada pior do que a necessidade de dizer algo quando a gente não tem nada a dizer.

Então, não que eu não me sinta comovido quando alguém pede para eu voltar. Ainda bem. Mas quando eu estiver meio de fora haverá as intervenções do Juliano Tosi, que é muitíssimo talentoso e capaz, e em quem confio inteiramente.


Outra corrida no Táxi Driver
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Inácio Araújo

por Juliano Tosi

“O importante é rever”, costuma dizer Julio Bressane. Revisitar um filme é estar livre para ver o que importa: menos o desenvolvimento da intriga, a narrativa (o que acontece), e mais o fluxo de imagens (como acontece). E aí está “Táxi Driver” – revisto em tela grande e numa cópia nova em folha – para fazer relembrar esta verdade: os grandes filmes são feitos para serem revistos.

Por exemplo: como são fantásticas as imagens de Travis (De Niro) em seu táxi, circulando por uma Nova York fétida e decadente. Está tudo lá – as luzes da cidade (predominando um vermelho infernal), a sujeira, as prostitutas, os poeiras e os inferninhos, a fumaça que exala dos bueiros – em travellings descritivos, a câmera fixada no carro, observando o mundo ao redor com os olhos de De Niro.

Para o meu gosto, o filme bem poderia ser todo assim (algo parecido com o “Dez” do Kiariostami, todo filmado dentro de um carro). A cidade e o táxi que corta as ruas. Os passageiros eventuais e o motorista. Já haveria mais do que o suficiente para satisfazer os olhos.

E aqui entra um notável senso de observação típico do melhor cinema americano. Isso não é fácil de alcançar, claro: requer rigor, mas talvez sobretudo repertório, um público que saiba ver algo além de novelas, um modelo de produção que possa premiar (mesmo que minimamente) o talento (e não seja refém de gerentes de marketing), etc.

Pois “Táxi Driver”, de certo modo, é um filme que poderia facilmente passar-se em São Paulo. Penso num taxista admirador (não apenas eleitor) do Maluf e que circularia pelo bas-fonds da cidade a praguejar contra o governo e tudo mais – quem nunca viu um personagem como este?

*

Mas, é claro, o filme mostra muito mais – não há estúdio americano que produzisse um filme assim. Então há Cybill Sheperd, como que saída de um sonho: um “anjo de branco”, como diz Travis. Seu ideal de pureza encarnado em belos olhos azuis. A salvação, enfim, de sua Sodoma e Gomorra pessoal.

Mas eles pertencem a mundos diferentes, para não dizer antagônicos. Só um atrevimento para fazer possível o encontro entre os dois. Mas o mal-entendido é evidente. Ela, além de linda, é razoavelmente tolerante, liberal e culta. Ele, um bronco que desconhece Kris Kristofferson, e que a leva para assistir um pornô-educativo sueco: “É um bom filme, muitos casais vêm assistir!”.

É uma das últimas frases que ele irá lhe dizer, claro. Ou antes, há um reencontro, no belo epílogo, quando tudo se inverte. Agora, ela o admira, o “vigilante” noticiado pelos jornais, mas ele já está curado de sua busca doente. Seus olhos tristes são os de um homem conformado.

*

Pois Travis Bickle, com 20 e tantos anos, já passou pelo que há de pior.

Desde o início, ele é um homem cansado, cansado demais para conseguir dormir. Depois de experimentar a guerra do Vietnã (é dito rapidamente apenas que ele foi marine, mas gosto de pensar que passou pela guerra), resta-lhe viver num mundo talvez ainda mais hostil.

Ele precisa, portanto, de algo novo: a tentação do mal é evidente. E aí surgem os espelhos: a famosa cena em que De Niro, possuído, olha para seu reflexo e, repetidamente diz “You talkin’ to me?” (Você está falando comigo?) antes de sacar o revólver. O mergulho no inferno está engatilhado: o homem dá vida plena a seu duplo maligno.

Não é melhor cena do filme (eu teria pelo menos uma meia dúzia de momentos que me agradam mais). Mas é a mais forte, logo, a imagem pela qual nove em dez pessoas irão se lembrar de “Táxi Driver” (quando eu ainda não tinha idade para ver o filme, já “conhecia” a cena de tanto que meu irmão mais velho já a descrevera).

Em todo caso, a espiral de demência está agora em pleno funcionamento: não basta mais uma chuva bíblica para “limpar toda aquela sujeira”; só o sangue para purificar. Travis Bickle é um profeta degenerado (um pouco como na música do Kris Kristofferson).


Táxi Driver, como deve ser visto
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Inácio Araújo

por Juliano Tosi

Táxi Driver (1976) reestreia esta semana no Cine Olido, em linda cópia em película (ainda não há digital que se iguale a uma bela projeção 35mm). É talvez ainda hoje o melhor filme do Scorsese: uma bela descida ao inferno. A primeira imagem, do táxi passando sobre um bueiro que exala uma fumaça estranha (enxofre?) é das mais formidáveis dos anos 1970. Algo que o resto do filme só irá confirmar: onde termina a busca do belo e começa a pura e simples patologia?

O roteiro, notável, é do Paul Schrader. A trilha sonora é assinada por Bernard Herrmann, o maior dos compositores de cinema. E Robert De Niro é um fenômeno.

O ingresso custa apenas um real. E, ao que parece, a ideia dos programadores é relançar de tempos em tempos outros belos filmes como este, também em película cristalina.

Cinéfilo que se preza, portanto, não pode perder. Sessões às 19h30.


Um belo filme, sim, de Jafar Panahi
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Inácio Araújo

por Juliano Tosi

A certo momento de seu “Isto Não É um Filme”, Jafar Panahi se questiona, com um olhar cabisbaixo e perdido: “Se pudéssemos contar um filme, por que filmá-lo?”.

Lá se passou uma boa meia-hora de seu não-filme. E, de fato, muito pouco que nos foi dado ver parece com o senso comum do que seja cinema. A ação é pouca; a produção inexiste: o não-filme foi todo feito em seu apartamento, e basicamente assistimos a gestos cotidianos (seu café da manhã, a iguana da filha que circula pela casa, etc.) e algumas conversas que só escapam ao trivial por tratarem de algo demasiado grave.

Mas a seriedade do tema (a censura, a arbitrariedade de um governo) é limitada a algo muito mais pessoal (mas não menos político): a prisão de Panahi e a proibição de fazer novos filmes e mesmo conceder entrevistas.

E aqui começa todo o dilema: como fazer cinema sem os meios para isto? Como fazer um filme sem cenários ou grandes equipamentos, sem atores nem técnicos – ou seja, sem tudo aquilo que, resumidamente, chamamos de produção?

Pois um filme é, em grau zero, algo essencialmente material: não apenas uma ideia, mas esta ideia mais sua concretização, sua “fabricação”.

Não por acaso Godard dizia que um filme é, também, um documentário sobre a sua filmagem. Isto é, um filme é uma imagem do mundo, ao mesmo tempo que um reflexo de si mesmo – algo que o próprio Panahi reafirmara no seu mais belo filme, justamente chamado “O Espelho”.

O que fazer, então, quando se está alienado do mundo, alheio ao que se passa ao redor? Contar o próprio filme que se tem imaginado na cabeça?

É o que o próprio Panahi irá fazer em alguns momentos: descrever algumas cenas de um roteiro não filmado (ele não foi autorizado pelo governo iraniano a produzi-lo) sobre uma garota presa em um apartamento, quase sem contato com o mundo exterior. E aqui temos, de fato, alguns momentos mais belos do filme: o cineasta não apenas narrando ações, mas sobretudo descrevendo dados concretos.

Pois sua matéria-prima essencial de trabalho está naquilo que só pode ser mostrado e visto: no espaço físico, por exemplo (na arquitetura do apartamento, na disposição de uma janela, etc.). Naquilo que está nos gestos, no rosto sofrido de uma atriz, num sotaque específico – e que, a princípio, pode parecer pouco significativo. Ou, ainda, naquilo que é, de certa maneira, imponderável (a reação incomum de um ator amador, na cena que nos mostra de “Ouro Carmim”), que foge ao controle do artista-criador. Tudo isto é cinema, e apenas cinema, pois um filme não é simplesmente um roteiro contado ou mesmo ilustrado.

Será o próprio Panahi, portanto, que irá conscientemente desmentir, imagem a imagem, a questão feita: por que filmar? Porque mostrar algo e saber vê-lo é também uma forma de revelação, tanto quanto qualquer outra arte.

“Isto Não É um Filme” é, portanto, um título mais do que apropriado: não uma imagem do mundo (algo que lhe é interditado), mas um objeto que é como uma imagem desta imagem (como o quadro de Magritte é uma imagem do chachimbo). E, no entanto, este é um belo filme – um dos mais belos que se pode ver nos últimos tempos.

Trailer legendado de “Isto Não É um Filme”


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