Blog do Inácio Araújo

Arquivo : November 2012

Em DVD: Candeias, Hawks e Bergman
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Inácio Araújo

Meu Nome É…

Excelente, excelente sob todos os aspectos a edição de “Meu Nome É Tonho” pela Lume, na coleção do Cinema Marginal.

A imagem está ótima. A última vez que vi uma cópia, quase não se via nada…

Ainda há “Zezero” e mais um curta no DVD e ainda alguns extras, como um programa Revista do Cinema Brasileiro dedicado a Candeias.

“Tonho” é, penso eu, o melhor Candeias. Junto com “A Margem”.

Mas gosto ainda mais de “Tonho”, um filme caboclo, um falso faroeste à brasileira. Digo falso porque os tipos, os costumes, o fraseado, tudo remete a um interior indefinido e que o autor trata com muitas cores.

Mas é de incesto, ao mesmo tempo, que se trata.

A vantagem desse primeiro Candeias é que ainda não tinha adquirido aquela auto-suficiência que fez dele diretor, produtor, roteirista, câmera, fotógrafo, montador, cenógrafo – tudo no mesmo filme.

Aqui ele tem Peter Overback na fotografia, Luiz Elias na montagem, Paulinho Nogueira fazendo a música. O resto corre por conta de sua imaginação, de sua percepção, de sua capacidade de compor bem, de construir as coisas de maneira totalmente fora dos parâmetros, mas fazê-las convergir até onde queria.

E o final, com Bibi Vogel se debatendo enquanto “Tonho” parte é qualquer coisa: é um mundo sem remissão, o que Candeias descreve aqui.

Bem mais interessante do que sua fase explicitamente política que viria a seguir.

O mistério do mistério

“À Beira do Abismo”, o grande Hawks de 1946, também está em versão impecável. O Luiz Carlos Junior sacou a proximidade deste filme com “Twin Peaks”. Achei fantástico. Ele diz que mais um passo e estamos em “Twin Peaks”. Eu só mudaria isso: acho que um passo a menos e estamos em “Twin Peaks”.

O que “À Beira do Abismo” expõe é o mistério do mistério, disso é que trata.

E há ainda “Fanny e Alexander”, que Alcino diz estar para a velhice de Bergman como “Monika e o Desejo” para a juventude.

E eu que esnobei, quando o filme passou…

Vamos atrás.

* * *

MEU NOME É TONHO (Coleção Cinema Marginal Brasileiro – volume 8). Brasil/1969. P&b, 91 min. Direção: Ozualdo Candeias. Com Jorge Karam, Bibi Voguel e Nivaldo Lima. Distribuição: Lume/Heco Produções.

À BEIRA DO ABISMO (The Big Sleep). EUA/1946. P&b, 114 min. Direção: Howard Hawks. Com Humphrey Bogart e Lauren Bacall. Distribuição: Versátil.

FANNY E ALEXANDER. Suécia/1982. Cor, 188 min (versão de cinema) e 320 min. (versão para televisão). Direção: Ingmar Bergman. Com Pernilla Alwin, Erland Josephson e Gunnar Björnstrand. Distribuição: Versátil.


Verônica
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Inácio Araújo

Tenho a impressão de que Marcelo Gomes resolveu inverter tudo que era possível inverter em “Era uma Vez Eu, Verônica”, em relação a “Cinema, Aspirinas e Urubus”.

O primeiro era um filme masculino, de diálogo, de encontro entre duas pessoas distantes, de sertão e lugarejos.

Já “Verônica” é feminino, a única referência efetiva da personagem é ela mesma, inexiste encontro, o filme é inteiramente urbano…

O que dizer? É claro que se pode dizer: João Miguel era a alma do “Cinema, Aspirinas…”.

Mas não é bem isso. Não é só isso. Havia uma conversa, um contato entre culturas distantes. A indústria e o sertão. A Alemanha e o Brasil. O cinema e o comércio…

Verônica me pareceu um tanto emperrado, porque se baseia nessa espécie de autismo da personagem. Não é autismo, eu sei, mas a ideia é essa: ela diz ter “um coração de pedra”. Significa que gosta de transar com os caras e tal, mas não ter uma relação estável. É como se fosse uma E.T., se pertencesse a outro mundo.

O fato de ser médica e psiquiatra não ajuda muito, pelo menos nos termos em que as coisas estão colocadas. Ou ao menos me parece que é assim: ela não ouve seus pacientes e percebe sintomas, mas, uma boa parte das vezes, reflexos dela mesma. Isso fica um pouco frouxo.

A grande relação dela é com o pai, mas como ele aparece, basicamente, como doente e objeto dos cuidados dela, também não percebi ali uma relação se estabelecer, quer dizer, essa coisa que leva o filme adiante.

Não quer dizer que não tenha bons momentos. Com o pai há alguns. O ambiente do hospital, fora da sala dela sobretudo, está muito bom. O plano dela no mar, muito bonito. Mas parece que existe o desafio de fazer o filme todo nas imagens. Ela fala do mar, do prazer do mar. Mas não partilha isso, nunca. E o filme também não. A atriz é muito boa, talvez a melhor de sua geração, mas tive a impressão de um filme meio emperrado, pensado pela metade.

Achei, resumindo, um tanto decepcionante em relação ao filme anterior do cineasta, de que se pode, no entanto, esperar coisas boas.

Aliás, ele foi co-autor do belo “Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo”, que é aquele cara todo amoroso escrevendo sua carta na paisagem agreste. Mas a ausência de contato direto, ali, é de outra ordem.

Aqui, agreste é o rosto de Verônica: um deserto, uma solidão, uma secura bem interessantes, mas que não desembocam em parte alguma… Não sei, posso não ter entendido o propósito, mas me pareceu que M.G. só percorreu metade do caminho.


Argo: entre heróis e aliens
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Inácio Araújo

 

Já Argo, tão falado, me decepcionou um pouco.

Pode ser o problema dos filmes muito falados. Mas não acho que seja.

Ele é honesto na colocação da questão Irã/EUA e ao notar a interferência da mídia (só nos EUA, na verdade) na história.

O fato é que existe uma enorme histeria de ambos os lados e idêntica falta de raciocínio.

Entre as massas, bem entendido.

Me parece que aí pode estar um embrião interessante para futuros desenvolvimentos por Ben Affleck.

No mais, o filme retoma a história de um plano genial.

A questão: como tirar do Irã seis funcionários da embaixada americana que haviam se refugiado na casa do embaixador canadense?

A resposta estapafúrdia do agente, especialista em tirar gente de situações incômodas: vamos fazer um filme. Ou melhor, vamos fingir que fazemos um filme.

Os detalhes disso são a operação propriamente dita.

A melhor parte do filme se passa em Hollywood, com Alan Arkin e John Goodman ao lado de Affleck, bolando um falso filme.

Há o momento genial em que estão escolhendo um roteiro para o filme fake.

Alguém sugere um título tipo “O Cavalo de Tróia” (não é tão óbvio assim, mas envolve cavalo).

O produtor: não serve. Ninguém mais faz faroestes.

Quem sugeriu (acho que o John Goodman): não é faroeste. É uma história mitológica.

O produtor: Se tem cavalo é faroeste!

Todo o final da operação se deixa levar por um suspense de montagem paralela, tipo filme do Griffith, sem nenhum humor.

É uma pena, porque dava para introduzir um tanto disso. A figura de Affleck mesmo sugere isso. Aqueles fanáticos iranianos, idem.

Não precisava tirar o que há de tenebroso da história.

Apenas tirar mais vantagem do argumento para o filme mesmo.

É um filme de estreia, talvez Affleck tenha querido segurar o público com o suspense da montagem paralela. E consegue. O filme não é detestável, mas deixa quase todo o tempo a sensação de que podia ser muito mais. O momento hollywoodiano de descontração sugere isso.

E havia algo a explorar, a respeito do cinema, dos EUA como uma província de Hollywood, mesmo em seu serviço secreto (lembrar o 1941 de Spielberg, em que os japoneses querem atingir o arsenal simbólico dos EUA, Hollywood), que acabou sendo deixado de lado, ficando meio que na surdina.

Em troca… bem pouco: aos aliens simbólicos, o filme preferiu o herói das sombras. É uma escolha prática, talvez forçada pelos financiadores, etc. Mas o filme ficou meio empobrecido.


James Bond renasce aos 50
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UOL Interação

Me pareceu sintomático que o novo 007, “Skyfall”, comece com uma velha luta sobre um trem, uma citação do cinema mudo de tão antigo, de tão clichê.

Segue-se um tiro de uma outra agente, que em vez de acertar o vilão pega direto no herói. Bond está morto. O velho Bond, seguramente.

É aí que começa a surpresa dos anos de James Bond. Sua segunda vida é todo um questionamento do tempo.

Começa com o jovem Q. suprimindo os gadgets que fizeram a fama da agência e do agente. Ele é um mago dos computadores. Oferece apenas um revólver especial e um transmissor de rádio. Diante de um decepcionado 007, pergunta, sarcástico:

“O que você queria? Uma caneta explosiva?”

A agência entra em uma outra era, já vemos desde aí.

E, não por acaso, a conduta de M (Judi Dench) é fartamente contestada: está velha, ultrapassada.

Como James Bond, talvez? Como os filmes de James Bond?

Bem, para resolver esse problema, a produção e os roteiristas providenciaram uma mudança de perfil do vilão. Nada de gente atrás dos restos da Guerra Fria, para efeito de dominar o mundo ou chantagear nações.

Nada disso: o vilão é um ex-agente ressentido. Isso é o que ele é. Quer se vingar de M. M de mãe, no caso.

No resolver do caso se dá o confronto/encontro entre o antigo e o moderno. Não por acaso, a sala urra de prazer quando 007 saca um velho carro, acho que dos tempos de Sean Connery.

O novo não pode anular o antigo, eis o princípio. Os rastros devem restar.

Na falta de ideias próprias, Sam Mendes empresta algumas antigas. A redoma em que o vilão é colocado quando de sua prisão, logo no início, remete aos lugares onde ficava exposto Hannibal, o canibal, em “O Silêncio dos Inocentes”.

A segunda parte vem mais do roteiro, mas segue o saudável princípio de “Rio Bravo”, quer dizer: os heróis se instalam em um lugar onde levam certa vantagem e esperam o ataque. Não é bem como “Rio Bravo”, em que o lugar não podia ser atacado, por causa do refém, mas a necessidade de estabelecer uma vantagem estratégica é o que conta.

Para resumir: fui lá sem esperar nada, mas tive uma surpresa bela. Acho que não há Bond tão bom desde os tempos do Sean Connery.

Mas é preciso dizer uma coisa: esse Daniel Craig muda inteiramente o padrão dos 007. Não toma um dry martini, não tem lá grandes charmes, mal transa com uma mulher. O filme é pudico à beça. Em compensação, o cara corre como um louco. Desde o primeiro filme dele é assim: ele corre.

É o Bond mais físico que eu já vi. Aliás, tem um plano engraçado, ele está com o torso nu e a primeira coisa que entra em cena, que se vê, são os peitos dele, e a primeira coisa que eu pensei foi: quem é essa mulher de repente entrando com os peitos de fora? Ai de mim… De tanto fazer musculação, o Daniel Craig desenvolveu um peitão que, cá pra nós, quase merecia usar um sutiã.


Elefante Branco e outros elefantes
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Inácio Araújo

Um filme estranho esse “Elefante Branco” de Pablo Trapero.

Nas primeiras sequências dá a impressão de que será um “filme de tema”: a favela, a presença de padres e sua atuação na favela, a questão da fé e as questões sociais próprias da favela.

Aos poucos, sem abdicar de nenhum desses temas, aliás, o filme vai se abrindo e, em vez de apontar alguma solução, boa ou má, para as questões que ali desfilam, vai apenas dando idéia de sua extensão.

E ela parece cada vez maior, cada vez mais inabordável.

O insuportável do Terceiro Mundo, da pobreza do Terceiro Mundo (sendo que na Argentina as desigualdades são muito menores do que entre nós) está lá. A impotência dos padres e da assistente social diante de tudo se assemelha àquela que nós, como espectadores, sentimos.

É um filme mobilizador, nesse sentido, porque inquietante.

Um belo filme político, coisa difícil de se ver.


Na Ressaca da Mostra
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Inácio Araújo

Que balanço se poderia fazer da primeira Mostra sem Leon Cakoff, seu criador?

Pessoalmente, foi muito triste. Os dias antes da Mostra sempre foram ocasião de visitá-lo em seu escritório, desde os tempos da alameda Lorena. E de a gente marcar encontros que nunca se viabilizavam, porque ele corria para um lado e eu para outro.

Seja porque no ano passado Leon morreu no momento em que a Mostra começava, seja por azar, em 2011 houve vários problemas, com pessoas reclamando de remarcações de filmes, de atrasos, de problemas na legendagem, essas coisas.

Diga-se, ninguém xingava ou coisa assim: ao contrário, me parece que todo frequentador foi capaz de compreender o quanto foi difícil para a Renata de Almeida estar no velório do marido e, ao mesmo tempo, à frente de um evento dessa dimensão.

Bem, o fato é que não ouvi reclamações neste ano. E das sessões em que estive presente (a última foi “Era Uma Vez no Oeste” com presença da Cardinale em pessoa) nenhuma apresentou problema.

A melhor sessão

Tivemos grandes filmes novos, é verdade, mas o melhor para mim foi o retorno de “Raros Sonhos Flutuantes”, de Eizo Sugawa.

Foi a última obra-prima do cineasta japonês, de 1990, e veio como parte da homenagem a Carlos Reichenbach.

Foi Carlão quem terçou lanças para, primeiro em Tóquio, que se localizasse Sugawa. Estranho: ninguém sabia onde encontrá-lo. Isso foi em 1995. E Sugawa apareceu. Anos depois ele veio ao Brasil com alguns de seus filmes.

“Raros Sonhos”, de 1990, é ainda melhor agora, depois do “Benjamin Button”, pois tem semelhanças (aqui, uma mulher de 67 anos começa a regredir na idade), mas é tão superior que chega a assustar.

Rossellini, sempre

Acho que com Mostra e tutti quanti nem cheguei a falar de alguns belos lançamentos da Versátil em DVD.

Bem, de todos acho que a caixa chamada “O Renascimento – A Era dos Médici” é uma preciosidade. Há dois discos sobre Cosimo de Medici e um terceiro sobre Alberti.

É incrível como Rossellini sabe destacar aspectos (do Renascimento, da vida de seus biografados) e, a partir deles, dar conta de uma era, de um estado de espírito, de um momento privilegiado do conhecimento humano.

Fantástico.

Trem Bala

Não tem nada a ver com cinema, mas tem.

Então aí vai.

Todo mundo é contra o trem bala, pelo que vejo. Menos eu.

Fazer Rio-São Paulo de avião, por exemplo, supõe a angústia de tomar um táxi e nunca saber se chegamos em tempo a Congonhas.

Quando atrasamos, perdemos o avião.

Quando não atrasamos, o avião atrasa.

Quando o avião atrasa (ou não), o portão costuma mudar, e a gente tem de passar na correria de um lado a outro.

É preciso chegar no mínimo uma hora antes para despachar bagagem.

É preciso esperar uma meia-hora, pelo menos, na chegada, pela bagagem.

Pois bem: no trem bala o cara chegará de metrô à estação (incrível: em SP não há Metrô que leve aos aeroportos).

Pode chegar dez minutos antes. É descobrir a via, o vagão, entrar, acomodar a bagagem e viajar.

Uma hora e meia depois o cara chega ao Rio;

Ah, sim, claro, não há risco de Santos Dumont ou Congonhas fecharem por causa de mau tempo.

Não sei como isso poderá ser deficitário. Francamente.

Acrescente-se: indo a Campinas, fará uma ligação rapidíssima com o interior de SP.

Parandoem São Joséfará ligação idem com o Vale do Paraíba.

Indo a Campinas finalmente viabilizará o Aeroporto de Viracopos.

Como isso pode dar errado, eu não entendo.


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