Blog do Inácio Araújo

Arquivo : October 2011

Argentina arrasa outra vez
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Inácio Araújo

Não se pode dizer que é uma surpresa:“Las Acacias” é argentino e tinha ganho o Câmera d’Or de Cannes para o melhor primeiro filme, um prêmio que costuma dizer alguma coisa.

Mas é surpreendente ver que o filme não tem exatamente nada a ver com outros filmes do país e se impõe com uma segurança que não se espera de um primeiro filme.

Não sei se lá eles são amigos, inimigos, o quê: mas eles têm uma segurança que vem de um modo de conceber o cinema.

O autor deste filme não tem medo de encerrar a carreira por falta de público.

Nem tem que mendigar (não tanto quanto os nossos cineastas) para fazer um filme sobre a viagem de um caminhoneiro e uma moça paraguaia entre a fronteira do Paraguai e Buenos Aires.

Um filme onde nada acontece. Nada dessas coisas que a gente espera que aconteça em filmes, pelo menos.

Mas outras acontecem: uma corrente sutil que passa entre esses dois seres solitários, silenciosos, marcados de maneiras diferentes pelo mundo.

Um filme belíssimo porque sabe captar seus personagens e as coisas com que se relacionam.

Tem força, tem alma.

O pessoal daqui, não é uma questão de talento, pelo menos nem sempre, mas o establishment quer é produzir blockbusters caipiras. Não ajuda a ninguém.

E não leva a nada.


O melhor da Mostra
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Inácio Araújo

O melhor, para mim, nesse início de mostra, é o “Habemus Papam”, do Nanni Moretti, que acabou chegando tarde e não foi exibido no domingo, que era o dia de sua estréia.

Entre os filmes estimáveis está, me parece, “Loverboy”, de Constantin Mitulescu, onde se manifesta bem o frescor do atual cinema romeno.

E a proposta, de início, parece bem tradicional: como se pratica o tráfico entre a Romênia e a Itália.

Em vez de grandes máfias, o filme se fixa em um grupo de rapazes, bem idiotas, claro, mas bem representativos do que significa essa passagem abrupta comunismo/capitalismo, em que a descrença em relação ao velho torna-se idolatria do dinheiro, convertido em valor único.

Mitulescu conduz a história de maneira bem interessante, na medida em que Luca, o loverboy da história, é que parece se apaixonar por Veli, a camponesa com quem começa a namorar, o que dá um contorno um tanto diferente a suas relações.

Vi também um Paradjanov muito bonito, o que é óbvio: ele é um esteta total e um talento e tanto. Mas não saberia dizer mais sobre o filme, de 1964.

Há abacaxis, também, como o filme de Cingapura/EUA com o qual encerrei meu domingo de Mostra, cujo nome já esqueci. Mas é o que mais irrita num fime, essa coisa que não é interessante nem tola de todo. Então é pura perda de tempo. No mais, a realizadora é de Cingapura, mas o filme passa pelos EUA, México, Japão, só não passa por Cingapura.

Ah, mas eu ia dizendo: o melhor da Mostra nem é tudo isso. É a alegria de encontrar amigos, pessoas que eu não via há muito tempo. Entre elas, o José Geraldo Couto, com quem topei num café, depois da sessão do filme de, supostamente, Cingapura.


Fim da seca: enfim começa a Mostra
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Inácio Araújo

É quinta! De quinta para sexta! No fim de semana, enfim: com a Mostra começando, nós aqui de São Paulo deixamos a imensa seca que tem sido o ano cinematográfico.

Aproveitaremos para, minuto a minuto, lembrar Leon Cakoff. Vamos sentir falta dele entrando na sala, trazendo os convidados para falar antes das sessões, chamando de lado para falar de um filme que considerava ótimo, reclamando de algo que não deu certo…

Haverá a retrospectiva Kazan, com vários títulos que há muito tempo não se vê: “Baby Doll’, “Um Homem na Multidão”, “America America” entre outros.

Haverá coisas interessantes da Itália: um Marco Bellocchio em registro intimista, muito terno, e um “Habemus Papam”, do Nanni Moretti.

Isso das coisas que eu já vi, entre elas o bom filme dos Dardenne.

O filme da Mostra, “Mundo Invisível” é quase sempre muito forte, e por vezes é genial mesmo. O episódio do Manoel de Oliveira é extraordinário: me lembra aqueles títulos de faroestes: rápidos e mortais.

Enquanto não começa, o DVD vai me segurando.

Há um ótimo lote da Lume, circulando, com o “Trem Noturno” do Kawalerovicz, e o notável “Billy Budd” de Peter Ustinov.

Por falar nisso, outro dia eu estava em frente ao Espaço Unibanco e uma grande operação de polícia pegou o pessoal da pirataria de calça curta.

É impressionante, porque tiraram camelôs e tudo mais ali da região da Paulista, mas só a pirataria cinematográfica continuava lá como se fosse o mais comum dos comércios.

Quero avisar que não tenho nada contra eles. Quem se opõe à pirataria são, de um modo geral, os grandes piratas da indústria cultural.

Tem companhia que vende produtos vagabundos, mal traduzidos e com discos de última qualidade por preços extorsivos. Eu não compro filme deles de jeito nenhum. Não estou me referindo, claro, à Lume, à Versátil, ao selo ligado ao Reserva Cultural, que lutam honestamente para sobreviver em condições mais que hostis.

Mas eu não preciso dizer dizer o nome dessa companhia em que estou pensando (no mais muda de nome mais que atriz pornô). Fico por aqui.


O sublime e o atroz
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Inácio Araújo

O sublime

Quando chegava ao velório de Leon Cakoff, na noite de sexta, um casal de amigos (cujo nome não direi, porque não lhes pedi autorização para isso) deixava o prédio do MIS.

Tinham ido prestar reverência a Leon, e explicaram: foi numa Mostra que começaram a namorar. Já se conheciam, mas o namoro começou ali, no cinema. Isso foi, disseram, na 3ª Mostra. Podiam ter esquecido. Não esqueceram.

Acho que esse cumprimento vale muito mais, infinitamente, do que a cobertura de “celebridade” que vi acontecer aqui e ali, como se Leon fosse um astro pop ou algo assim.

E, aliás, não é a sociabilidade um dos papéis da Mostra (e do cinema)? Que o digam as muitas filas em que pessoas parecidas puderam se conhecer e se aproximar.

Será bom lembrar que a Mostra está em ótimas mãos. Renata Almeida foi mais que uma colaboradora de muitos anos, foi um braço direito de Leon Cakoff por muitos anos. Mas nestes últimos meses segurou a doença e a mostra ao mesmo tempo.

… e o atroz

São Paulo foi invadida por uma onda estranha de violência. A toda horas pessoas são agredidas (homossexuais em particular) ou mortas (por automóveis, em geral), embora o caso mais recente seja de um futebolista.

A violência está também, sobretudo talvez, na linguagem.

Tomemos o caso do jogador de futebol, que estava deixando o clube onde joga, o Palmeiras. Teria sido interpelado por um torcedor sobre os maus resultados de seu time. Teria reagido agredindo o tal torcedor. Ele diz que o torcedor teria chutado seu carro

Esses detalhes são irrelevantes. O certo é que nenhum torcedor tem o direito de interpelar um jogador de time nenhum. Não é seu papel.

Para isso existe técnico, diretoria, o diabo. O jogador joga aquilo que pode, que sabe. Ninguém tem culpa de não ser Pelé.

Muito bem: estamos nisso quando um grupo de torcedores sai do bar em frente e passa a agredir o jogador.

Vejo que muita gente engoliu esse papo de que, por ter dado o primeiro soco (ou chute, é indiferente), o jogador foi o culpado pelo evento.

É um caso de conformismo involuntário (porque ligado à linguagem) quase absurdo.

Alguém que, sentindo-se acuado (vítima de bullying, para usar um termo que hoje se compreender) desfere um pontapé não tem que ser agredido por dez ou quinze marmanjos que estavam vagabundeando no bar em frente.

É uma coisa indizível. Esses selvagens existem por aí às pilhas. Mas essa demissão, essa aceitação passiva de uma explicação que não explica nada (quem deu o primeiro soco) é que me parece alarmante.

Quanto aos dois caras que agrediram os rapazes “com um tapa”, por terem sido “provocados”, não há o que dizer: o cara que dá um tapa e quebra três costelas do agredido é fenômeno a ser estudado pela ciência (músculos e cérebro).


A coleção Aplauso voltará, garante a Imprensa Oficial
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Inácio Araújo

Quem deu essa garantia, durante a coletiva que precede a Mostra Internacional, foi Carlos Roberto Abreu Sodré em pessoa, quer dizer, o manda-chuva da Imprensa Oficial.

Quem lançou a questão foi o Celso Sabadin: o que vai acontecer com a Aplauso? Afinal, a coleção não contratou livros este ano, limitando-se a lançar o que já estava acertado anteriormente.

Abreu Sodré deu aquelas tergiversadas características de político antes de concluir que a Aplauso voltará, sim, mas agora mais rigorosa, de maneira que os biografados vão se sentir mais bem representados do que no passado.

Pouco depois, alguém que, desculpe, não pude identificar, voltou ao assunto para lembrar que os autores eram escolhidos pelos próprios biografados, e que se sentiam muito bem representados, etc.

Para resumir: a prensa foi geral, as respostas vagas na medida do possível. Mas de tudo restou a promessa de que a Aplauso voltará.

Que ela é irregular, nenhuma dúvida. Pode-se encontrar lá os artistas mais “celebridades”, os mais importantes, mas também os esquecidos, os escanteados.

Algo me diz que o objetivo de Abreu Sodré (mas posso estar enganado) seja jogar os mais obscuros para fora e ficar só com as Fernandas e Walmores. Temo isso. Espero estar enganado, porque o melhor da coleção é, justamente, a “falta de critério”.

Uso aspas porque, de modo geral, quem chegava levava. Não havia esse tipo de hierarquia idiota. Isso é que permitiu traçar perfis muito interessantes de pessoas pouco conhecidas.

Isso, mais as coletâneas de textos críticos, mais a publicação de roteiros, formou em poucos anos um acervo precioso, embora incompleto, do funcionamento das artes que envolvam cinema, teatro e televisão, em São Paulo, sobretudo, mas não só.

O que ocorreu, na troca de governos, e embora ambos sejam do mesmo partido, foi mesmo a descontinuidade desse projeto, que tirou a Imprensa Oficial de sua histórica insignificância e instituiu um certo profissionalismo na atividade (como os livros são vendidos a preços bem baixos e uma parte vai para bibliotecas públicas, os autores recebiam um valor fixo pela elaboração do livro – isso em troca dos direitos autorais. De todo modo, e salvo exceções, acho que se recebia mais do que se recebe habitualmente como direitos autorais por publicação de livros).

Vamos esperar que o projeto recomece mesmo. Ele era bom. Tinha aspectos duvidosos. Não acredito que valha a pena entupir as bibliotecas de escolas estaduais com esse tipo de publicação, a não ser que seja para constar de estatísticas, etc. e tal. Mas coisas análogas sempre ocorrem em projetos estatais análogos. É um efeito parasitário meio inevitável. O que vale, no caso, é tocar o barco.


As séries estão de volta
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Inácio Araújo

O que é ótimo, elas são o sucedâneo contemporâneo do gênero: devem nos oferecer, a cada semana, algo inesperado, porém dentro do plenamente previsível.

Só uma coisa me inquieta. Por que não existe nenhuma série, uma que seja, com nome em português?

No mundo todo não é assim. Podia ser “Dois Homens e Meio” ou “A Teoria do Big Bang”, para ficar nas sitcoms.

Não sou um nacionalista furibundo, nunca fui, mas também não sou entreguista da língua. E, caramba, a vida inteira se falou de “Hawai Cinco Zero”. Por que agora é “Hawaii Five-0”?

Algumas podem ter nomes em inglês, fica até mais fácil. “Law & Order” nos fala de um mundo de law & order, bem americano. Mas outros chegam a ser obscuros.

Enfim, isso é o que eu penso, mas provavelmente ninguém concorda muito, ao menos nas TVs, ao menos entre as pessoas que acham meio distintivo dar títulos no original etc. e tal.

Alguma exceção existe: “Terra Nova” é o nome de uma série nova.


Quantas estrelas você vale ?
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Inácio Araújo

É terrível, isso: ter de dar cotações, estrelas, para os filmes que a gente comenta. Elas se tornam um absoluto. Não são.

“Trabalhar Cansa” é bem mais do que as duas estrelas (“regular”) que eu mesmo lhe dei. um filme em que os autores estão buscando alguma coisa. Não trabalham o facilitário habitual.

Mas, caramba, também é verdade que existem muitas hesitações, que o filme é como que bipartido em algo alegórico (o supermercado) e uma metade social-psicológica (o desemprego do marido).

A direção de atores hesita na mesma medida: parece às vezes que deviam ser como personagens de filme de Robert Bresson, mas ficam apenas vazios.

Como disse, é um caminho difícil, tem seus erros, mas não é inconseqüente, nem vazio, é algo que promete chegar a algo, a um cinema paulista de fato novo, como o de Anna Muylaert.

É um pouco como “Corpo”: frágil em certos aspectos, mas com algo a dizer.

Quem é o autor?

O filme é assinado por uma dupla. Digo, o “Trabalhar Cansa”.

Mas “Corpo” também. E “Alegria”.

Na verdade, duvido muito dessa dupla autoria na maior parte dos casos.

É um pouco como Walter Salles. Assinava sempre os filmes em conjunto. Com o tempo, a gente vê que algo persiste nos filmes que é dele. Daniela Thomas está na dela. E bem, por sinal.

Acho muito bom que as pessoas sejam camaradas. Mas na parceria existe alguém que inventa e alguém que segue, que ajuda, que colabora. Será bom (para as pessoas) que isso fique claro).

Belas Artes – In Memoriam

A bela fotografia que ilustra o post foi enviada pelo amigo e cineasta César Gananian. A pixação “Pasolini Passou Aqui” foi feita pelo poeta Gabriel Kerhart na semana passada.


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