Blog do Inácio Araújo

Arquivo : October 2013

Mostra 37: Tsai Ming Liang e outros
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Inácio Araújo

cãeserrantes3

Uma coisa é absolutamente certa: entre Tsai Ming Liang e eu não existe nada em comum. Deixei “Cães Errantes” no meio, não revoltado, mas entediado.

Fui ver o filme por causa do simpático e convincente monitor da Mostra cujo nome não me lembro para quem Tsai é um “inventor”, segundo a classificação de Ezra Pound.

Já eu diria, como Macedonio Fernández: não durmo desse lado.

E, no entanto, existe algo de fascinante em alguns momentos: aqueles homens-placa no meio do trânsito, debaixo de um vento-chuva inclemente, ou o plano do homem usando toda sua força para mover seu barco.

Mas o conjunto parece se aproximar desses trabalhos meio desajeitados de artistas plásticos se aproximando do cinema. Não que Tsai não seja um cineasta, isso é óbvio que é, mas não gosto dessas coisas todas muito calculadas, desses tempos artificialmente esticados. Não são tempos mortos, são vazios. Tornam-se vazios à custa de permanecer.

E Tsai até pega fatos, coisas. Mas coloca o estilo à frente deles.

Não é o primeiro. Taiwan é o paraíso do estilismo.

Não me fazem feliz esses chinas. E a arte existe para nos fazer felizes.

Achei mais correto um rapaz perto de mim que tomava notas o tempo todo. Sim, eis aí um filme conveniente para fazer anotações: o que não falta é tempo para isso.

GriGris

Como era justo esperar, ninguém deu nada por Grigris, filme do Chade.

Como diz Alcino Leite Neto, no imaginário ocidental, a África é basicamente fornecedora de epidemias, pragas, desgraças.

Mas também tem bons filmes e bons cineastas, como esse Mahamat-Saleh Haroun. O filme é curto e grosso. Vai ao ponto: contrabando de gasolina, prostituição, esgotos a céu aberto…

O filme me fez lembrar o Simão quando diz que não vai ver filme de país que não  tem água encanada.

Nem sempre.

Nesse lugar onde parece não haver emprego, lutar pela sobrevivência é o que vem na frente.

E o próprio ator que faz Grigris foi danificado na infância por uma injeção que lhe pegou o ciático e estragou uma das pernas. No entanto, esse cara virou um dançarino exímio.

Sua parceira, que na verdade é francesa e consegue como poucas unir espiritualidade e beleza física com tal intensidade.

Um filme que será subestimado em favor desses chineses.

Coutinho

Uma beleza a Mostra fazer a retrospectiva completa do Coutinho. Mas não consegui ver o que mais queria, que é O Fio da Memória, que me impressionou muito quando o vi pela primeira vez.

E também esses filmes ficcionais que ele fez e detesta, e parece que são ruins mesmo, mas eu queria ver.

E mais as coisas que eu fui vendo e esquecendo, ao menos por ora, não quer dizer que não sejam legais…


Duas ou Três Coisas que Vi Nela (na Mostra 37)
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Inácio Araújo

3x3D ou Godard vs. Greenaway

Greenwaway faz hoje o cinema publicitário de amanhã;

O episódio português se enfia por um caminho e parece não saber aonde ir. Não sabe mesmo: perde-se todo.

Godard: tem que ver ainda umas dez vezes, mas está no seu andamento crepuscular.

Três dés-astres. Continua pessimista e afiado. Um lance de dados e três desastres. Três dimensões.

Qual é a profundidade? Perguntou o patrão do Titanic.

Aquelas duas câmeras acopladas questionando o século 20, as guerras, as palavras que assinalam o que não está lá, porque só a imagem traz o mundo.

As imagens que não me deixam

as de Miss Violence.

Fui ver o filme por causa do nome e porque filme bom quem faz são os países em crise.

Desespero é o que não falta. Talvez sobre. O andamento até o segundo terço é fantástico. mulheres: quem é mãe, quem é avó, quem é filha?

O rosto do ator-mentado principal é sublime.

Mas fiquei com a impressão de que o filme não fecha bem, que o encaminhamento do final reduz o personagem masculino a um anormal, e a anormalidade, sendo fora da norma, não interessa à ficção.

Será o filme uma metáfora da Grécia?  Quer dizer: um país vende tudo que lhe é mais caro para sobreviver, mas não sobrevive… Algo assim.

as de A Fuller Story:

Uma frase apenas para resumir tudo: Há três maneiras de voltar de uma guerra: morto, ferido ou louco.

Uma frase de Fuller, claro.

O filme de episódios de Guimarães: ou O Retorno de Victor Erice. Episódio fabuloso.

Oliveira não brilha: às vezes acontece.

Brasil

Riocorrente

O Lauro Escorel disse que eu gostei mais do que ele acreditava que eu teria gostado do filme do Paulo Sacramento (isso se eu entendi bem o que disse).

Na verdade não é bem o tipo de filme que eu goste. Mas, sendo objetivo, eis um filme que se diferencia muito do nadismo reinante na produção paulisto-carioca.

E, sendo subjetivo, foi também uma homenagem ao Jairo Ferreira. Acho que ele ia gostar imensamente do filme.

O Escorel gostou mesmo foi da visita ao cemitério, da homenagem aos clássicos. É realmente bem bonito, uma reflexão do Sacramento que indica seus escrúpulos cinematográficos, talvez certo lamento por já não ser possível ser clássico.

Helena Ignez

Passeia por quatro telas e talvez cinco continentes. De uma oficina de atores tira um mundo. Um mundo de altos e baixos, momentos assaz interessantes e outros assados.

Um espírito anos 70 baixouem mim. Legalque sobreviva.

O Sacramento atrás da idéia que se convertaem ato. Helenavai ato, e se for preciso sem idéia: black bloc.

Ana Arabia ou Amos Gitai ressuscita.

É disso que me lembro por ora. Entre tantas coisas perdidas, por trabalho, por cansaço, por coincidência de horários.

Entre elas Avanti Poppolo. É linda a imagem do Carlão no catálogo.

Não vale falar de Ozu ou Kubrick, ó obvio.


Mostra, ano 37
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Inácio Araújo

 

Caminha, a Mostra. Já sem Leon, já sem Carlão.

Continua sendo uma ótima oportunidade para se manifestar o inesperado.

O melhor para mim são as filas.

Essa bela instituição foi banida pelas vendas por internet e, sobretudo, pelos lugares marcados, essa praga.

Agora a única chance de topar, numa fila, com velhos amigos, que a gente não vê há muito tempo, na Mostra.

Ainda bem que ainda não deu para marcar lugares previamente.

Conversa-se, troca-se ideias sobre os filmes, sobre as coisas etc.

Outra coisa muito boa são os inesperados.

Fui ver o filme português sobre Novais Teixeira, mas não conseguiram projetar (ah, a tragédia do HD está aí), acabei vendo um filme georgiano que nem entendi direito o que era, o que é uma virtude, aliás.

Não posso falar agora dos filmes que vi.

Depois conversamos.

Por ora, me surpreenderam: o novo do Amós Gitai e a estreia do Paulo Sacramento na ficção. Mas devo estar esquecendo de alguns, sem dúvida


Sobre Biografias
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Inácio Araújo

Recebi o ótimo texto abaixo, por email, do João Carlos Rodrigues. É muito abrangente e concordo em quase tudo com ele. Abaixo dele, acrescento duas ou três linhas, talvez até para divergir um pouco.

João Carlos Rodrigues

Nada poderia ter feito mais mal às biografias de Caetano-Gil-Milton-Chico (e os outros todos, também) do que ter assinado o manifesto Procure Saber. Nem o panfleto mais apócrifo, mais caluniador, mais nauseabundo, cheio de calúnias e/ou insinuações teria um efeito tão nefasto. Pois, se algum deles fosse vítima de uma infâmia dessas, entraria como vítima e teria a solidariedade nacional, como ótimos artistas há mais de quatro décadas encarapitados na árvore evolutiva da música brasileira. Como signatários do Procure Saber assumem uma nova face até agora oculta, a face do obscurantismo, o lado escuro da força. Que decepção para os que, como eu e outros muitos, sempre os tivemos como faróis libertários, mesmo nos momentos mais tumultuados da vida brasileira, 45 anos atrás. O tempo não lhes foi bondoso, constatamos tristonhos. Os reis estão nus, como na fábula. E velhos. Não apenas nas faces já não tão faceiras, mas principalmente nas suas opiniões sobre o que é a Liberdade (de expressão), que na brilhante definição da Rosa Luxemburgo, é “a liberdade dos que divergem de nós”.

Escrevi duas biografias. João do Rio e Johnny Alf. Os dois não tinham parentes, sorte minha, pois suas vidas tinham segredos que não podiam revelar, mas que elucidam (e muito) suas obras. Teriam sido interditadas pela lei vigente. Em ambos os casos recebi informações bombásticas, algumas certamente verdadeiras, outras jamais, mas que, por não possuírem provas idôneas ou realmente contribuírem para a compreensão do trabalho deles, simplesmente ignorei. Sim, é preciso que o biógrafo tenha discernimento. Mas, assim como a liberdade de imprensa implica também na liberdade dos maus jornais e dos maus jornalistas, é melhor que sejam publicadas biografias mal intencionadas do que sejam impedidas as que realmente contribuem para o andar da carruagem.

Pensemos agora além das frágeis intimidades dos quatro semideuses, mas pensemos grande, além do horizonte. Como se farão os estudos da História do Brasil apenas com biografias chapa branca? Como se elucidará a personalidade de políticos, e, por conseguinte, dos seus mandos e desmandos? Então Sarney, Renan, Dirceu, Collor, Maluf e outras jóias do nosso cancioneiro político terão de aprovar previamente o que for escrito sobre eles? O eleitor nunca terá a oportunidade de conhecer a face oculta da lua? Devem estar às gargalhadas, brindando o apoio inesperado recebido por tão ilustres personalidades. Pois é isso que vai acontecer, caros menestréis, se o seu estouvado e inoportuno manifesto for levado a sério como se pretende. E é assim que construiremos um país que valha a pena? Cedendo aos pudores póstumos das madalenas arrependidas? Vergonha. Vergonha. Vergonha. Que herança maldita deixarão para seus filhos e netos! De recuo em recuo, qualquer Bakunin vira Pastor Malafaia.

Então, para arrematar, repito o que disse no primeiro parágrafo. Nem o mais infame pasquim da imprensa marrom fará algum dia maior mal às biografias de Caetano-Gil-Milton-Chico do que o fato de terem assinado o Procure Saber. O que é isso, companheiros? Quem não deve, não teme. Agora é tarde. Podiam morrer sem essa. Daqui a um século talvez as belas canções tenham sido esquecidas, mas o manifesto não será, infelizmente. Uma nódoa indelével que o futuro repetirá ad aeternum através de suas biografias, autorizadas ou não. Pois tenho esperança e quase certeza de que a sensatez e a liberdade de expressão vencerão. Para o bem de todos nós, inclusive deles mesmos. Adeus, meus caros. “Bato o portão sem fazer alarde, levando a carteira de identidade e a leve impressão de que já vou tarde”. Mas no caminho certo.

RJ, 17 outubro 2013

Questões pontuais

Agora sou eu, Inácio, e minhas dúvidas.

Me parece que, desde o início, há duas questões misturadas aí: uma, o do direito à intimidade (inclua-se nela o direito à verdade e tal); outra, o do direito a indenização monetária por uso da imagem.

A segunda, partindo de quem parte, é uma coisa indefensável. Eu posso entender que a família do Garrincha precise desse dinheiro (que, aqui entre nós, nem é tanto assim). Mas o Chico Buarque? O Caetano Veloso? O Roberto Carlos? Não dá.

A primeira teria de mim alguma simpatia. Não me parece que intimidades da vida de um cantor ou compositor, por exemplo, devam ser expostas, pelo menos enquanto ele estiver vivo, primeiro porque existe o seu direito à privacidade e não convém confundir isso com torturadores. Segundo, porque não está claro para mim que conhecer algo sobre os casamentos de um ou as separações de outro, a sexualidade de um terceiro possam ter algum interesse para a cultura nacional.

Por uma questão de bom senso, apenas isso, em princípio essas biografias deveriam ser sempre póstumas, até porque o tempo é que poderá dar a medida da importância de determinada vida.

O que Noel ou Guimarães Rosa representam para a cultura, sabe-se. O que representará Roberto Carlos daqui a 20 ou 30 anos? E nesse caso surgirá algum biógrafo interessado no assunto ou o interesse é mesmo apenas mercantil?

Estava eu nessa simpatia por ao menos essa parte da argumentação, quando li que Paula Lavigne, num programa de TV, interpelou a jornalista Barbara Gancia sobre sua sexualidade.

Uma interpelação cuja baixeza não deixa dúvida sobre a personagem, pois seu único objetivo era embaraçar a interlocutora justamente naquele ponto – a vida pessoal – cuja proteção tem sido tão reivindicada pelos artistas em questão.

Aliás, para falar a verdade, a questão que me fica é a seguinte: se você se expõe na TV ou na Caras, ou algo assim, com objetivos publicitários, produzindo uma falsa intimidade, com que cara interditar que uma outra intimidade, talvez verdadeira, seja produzida?

Enfim, quase não tenho certezas finais a esse respeito, mas me sinto próximo ao raciocínio do João Carlos.

Se eu legislasse sobre isso, pediria em contrapartida que herdeiros devessem ser excluídos de direitos diretos ou conexos sobre a obra de seus pais ou parentes. Impedir que se fale de Guimarães Rosa, que se exiba o “Matraga” de Roberto Santos, que se proíba biografia de daqui a 20 ou 30 anos? E nesse caso surgirá algum biógrafo interessado no assunto ou o interesse é mesmo apenas mercantil?

 


Será “O Capital” capital ?
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Inácio Araújo

 

Ainda bem que não escrevi antes sobre O Capital.

Antes de rever o filme, sobretudo.

Acho que ando no que médicos chamam de “processo de regressão cognitiva”, que é quando o sujeito deixa de ter interesse em adquirir novos conhecimentos.

Assim com o Costa-Gavras e seu Capital.

Tenho uma ideia feita sobre o diretor francês. Greco-francês, dirão alguns. Comuno-francês, prefiro eu.

Mas é um pouco essa ideia mesmo, a do cineasta excessivamente político, sempre atrás de uma causa justa, que criei dele. Gorilas gregos, déspotas tchecos, milicos chilenos. Costa-Gavras tem uma inclinação para correr o mundo atrás de boas causas. E elas existem, são mesmo justas etc.

Mas a eficácia de seu cinema me parecia reduzida.

Mesmo o célebre “Z” era um impacto incrível, mas perdia-se: o aspecto thriller acabava triunfando, de maneira que a postulação de “verdade” para aqueles fatos, por verdadeiros que fossem, acabava um pouco escorrendo pelo ralo.

Bem, O Capital:

Para começar: ainda bem que existe alguém para fazer um filme sobre isso, no momento em que o triunfo do capital financeiro é considerado não mais um triunfo histórico, mas quase biológico.

Por mais que a turma da direita se ache colocada contra um muro e tal, é preciso dizer logo e com franqueza: eles é que venceram. Eles é que fazem a maior parte das pessoas acreditar que essa é uma verdade eterna. Já devidamente naturalizada.

Estamos longe de “Z”. Atualmente se erigem estátuas, se fazem filmes à glória de Thatcher…

Então é bom, para começar, que surja a contradita. O Costa-Gavras.

Mas, se eu relutei em me atualizar, ele o fez muito bem.

Ao contrário de outras ocasiões, em que reconstituiu fatos com paixão realística, desta vez Costa-Gavras buscou ser demonstrativo.

Também numa grande tradição da esquerda.

Assim, uma coisa que me irritou na primeira visão foi o fato de o presidente do banco, Tourneuil, ser ele mesmo e seu contrário.

É um banqueiro e a consciência do que faz um banqueiro – o que é impossível.

A menos… claro, que o filme não se pretenda realista.

E ele não se pretende.

Passemos por aquelas cenas em que Tourneil imagina situações. São muito ruins, mas são felizmente poucas.

E pouco para invalidar a maneira cristalina como as operações “Robin Hood dos Ricos” (que fazem os ricos mais ricos e os pobres mais pobres) podem se desenvolver.

Ele não finge que aquilo se passe daquele jeito. Ele organiza uma hipótese. E o faz bem.

Mas é do ponto de vista da mise en scène que o filme se sai muito bem.

Não falo da música, que é usada para envolver o espectador, bem classicamente. Talvez até exageradamente.

Funciona.

Mas me interessou mais o controle das coisas. O acúmulo de detalhes por vezes insignificante que dão aos personagens uma vida bem realisticamente, mas que depois o filme desmente, e não só quando o presidente dialoga com a câmera.

Me parece que Costa-Gavras joga muito bem, da maneira mais sólida que já o vi fazer, com o espectador.

Ele constrói seu presidente, seu Tourneuil, como um cara que vê tudo, que está num jogo e tem que ser melhor que todos os adversários. Tem que ver melhor.

Mas, ao mesmo tempo, ele nos dá sempre a esperança (bem à maneira clássica) de que evoluirá para o lado “do bem”.

Só para em seguida novamente nos decepcionar e fazer dele um executivo implacável.

É essa forma de distanciamento e aproximação filme/plateia que C-G desenvolve aqui com muita desenvoltura.

Sim, no fim me parece que O Capital é capital. Por que não?


Sobre “Gravidade”
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Inácio Araújo

(texto para a Ilustrada)

O programa a que se propõe “Gravidade” não é extenso, embora complicado: trata-se de mostrar, o mais realisticamente possível, a vida no espaço. E por “a vida no espaço” entenda-se que boa parte do filme de Alfonso Cuarón se passa fora de qualquer estação ou cápsula. A missão sobre a qual o veterano Matt Kowalski (George Clooney) tanto brinca que tem maus pressentimentos efetivamente passará por problemas – e não dos menores.

Ao lado de Kowalski está uma novata, a médica Ryan Stone (Sandra Bullock). Durante uma missão (dela) e um passeio (dele) fora da cápsula, as coisas começam a deteriorar. Seu equipamento principal é atingido por uma nuvem de detritos espaciais. A partir de então segue-se quase a rotina desse tipo de aventura: a deterioração sempre crescente, a possibilidade de uma salvação próxima, essa possibilidade se esvaindo em função de novos problemas. Etc.

Estamos no espaço, e a falta de gravidade é,já se vê, o menor dos problemas que nossos astronautas enfrentarão. Desde a falta de ar até a completa ignorância da dra. Stone da língua chinesa, tudo parecerá perigoso. Perigoso e bem resolvido do ponto de vista visual, que é o que essencialmente interessa.

Pois com “Gravidade” estamos na esfera do cinema-espetáculo. O desenvolvimento das personagens é mínimo. Mesmo os aspectos que podem comover alguém (por exemplo, os referentes à morte da filha da dra. Stone) não servirão para fazer ninguém chorar, exceto, talvez, ela própria.

Mas isso, em definitivo, não importa. O alvo de Cuarón é a pura aventura: estar no espaço, flutuar, contemplar a beleza (tudo isso no início). E mais tarde, ora ser jogado de um lado para outro no espaço, ora um corpo em velocidade tentar desesperadamente agarrar uma estação espacial, ora respirar com seu oxigênio se exaurindo.

O que Cuarón nos oferece é uma aventura quase sem transcendência, em que o essencial é sobreviver, mas também sem baixezas (não se serve do 3D para ficar nos atirando meteoritos no rosto, esse tipo de coisa). Seu ponto mais forte talvez seja a suave passagem de bastão de uma geração a outra: como Kowalski usará sua experiência para ajudar Ryan em sua luta pela sobrevivência.

A odisséia espacial de nossos astronautas não será um questionamento sobre quem somos nós, humanos, diante do espaço (universo) e do tempo, como no “2001” de Kubrick. Nem para reconstituir a real agonia relatada por “Apollo 13”. Mas é possivelmente o filme que até hoje melhor cria a idéia de como o homem e o espaço sideral se relacionam fisicamente. Um programa não extenso, mas cumprido: é mais do que nada.


Norma Bengell
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Inácio Araújo

O que me entristece de fato nem é Norma Bengell ter morrido, pois morrer todos morremos. É perceber a absoluta injustiça que o Brasil faz com seus grandes artistas, o abandono a que são relegados, a maneira como foi tratada em vida.

Claro, me entristeceu ler das dificuldades econômicas pelas quais passava no fim da vida. Mas muito muito mais doloroso é saber que isso teve ressonância infinitamente menor que as acusações de roubo feitas há algum tempo.

Isso, para mim, é de chorar.

Essa ignorância satisfeita, incapaz de reconhecer a beleza de uma obra.

Esse ressentimento infinito que pensa que é moralidade.

É de chorar.

Estamos diante da primeira atriz brasileira a ser verdadeiramente internacional, acho que desde Carmen Miranda. Estamos diante da vedete maravilhosa encarnando Brigitte Bardotem O Homemdo Sputnik, da atriz espetacular de Os Cafajestes, Noite Vazia, Os Deuses e os Mortos (que só pude rever, e parcialmente, na Mostra passada, quando foi exibida pela Positif), O Anjo Nasceu, bem… Não acaba mais.

No mais, a única coisa que tenho a dizer contra ela é que não foi de fato uma boa diretora de cinema, que seus filmes nunca de fato me interessaram ou mesmo agradaram. Mas isso não chega a ser um pecado, suponho.

O Capital

Queria falar do Costa-Gavras, cujo filme expõe as virtudes e os muitos problemas que povoam a sua filmografia. Fica para outra.

Hoje passei o que restava do dia brigando com um computador temperamental.


Ênio e a melancolia
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Inácio Araújo

Na pressa de comentar o desaparecimento de Ênio Gonçalves disse, por engano, que o último trabalho dele com Carlão Reichenbach foi em “Falsa Loura”, quando na verdade foi em “Garotas do ABC”, fazendo o repórter.

À parte isso, o importante, que eu não cheguei a dizer, é que Ênio representou como ninguém a melancolia, um certo desatino diante da vida.

Por fim, eu queria me desculpar com sua família por não ter ido ao velório. Estou certo de que não fiz falta, mas a razão foi outra: estou cheio de, nos últimos tempos, frequentar velórios.


Morreu o Ênio Gonçalves
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Inácio Araújo

Detesto ter de dizer isso, mas Ênio Gonçalves morreu.

Faz pouco mais de um ano que nos encontramos. Era o velório do Carlão, ele estava triste e ótimo.

Talvez mais triste do que eu imaginava. Ele foi o alter-ego por excelência do Carlão.

Era simpático também, muito simpático, afável, caloroso.

Que notícia horrível que me deu o Puppo, com quem acredito que tenha feito seu último trabalho.

Eu gostava de ver o Ênio em geral, mas nos filmes do Carlão era sempre muito especial: como o advogado de porta de cadeia do Anjos do Arrabalde, como o Fausto de Filme Demência.

Num ele era meio grosseiro, do tipo que pretende tomar o destino nas mãos. No outro era frágil, levado pelos demônios.

Mais recentemente talvez ele tenha estado melhor do que nunca. Como aquele pai todo trincado da Rosane Mullholand, em Falsa Loira, morando numa casa verdadeiramente inverossímil…

Fará falta o Ênio.


Nova Cinemateca?
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Inácio Araújo

A escolha de Lisandro Nogueira para a direção da Cinemateca Brasileira sinaliza a intenção de mudar completamente a instituição.

Igual por igual, ficava Olga Futema…

Bem, Lisandro é um professor universitário.

Não, em princípio, até onde eu saiba, um administrador, embora fosse a alma do Festival Internacional de Cinema Ambiental na cidade de Goiás, antiga capital de Goiás.

Uma vantagem enorme: é uma pessoa de que é muito difícil desgostar.

Uma simpatia capaz de desarmar dores e rancores que ficaram pela maneira como a Cinemateca foi tratada nos últimos tempos.

Quero dizer: é uma pessoa que, quando conversa com você, só olha para você, não fica olhando por cima do ombro para ver se há alguém mais interessante (que interesse mais, bem entendido), mais poderoso, mais tudo isso.

Mas a Cinemateca é um desafio à parte.

Primeiro, terá de enfrentar o umbigocentrismo paulista.

Ah, se vocês não sabem, nós somos um Primeiro Mundo que por acaso caiu aqui no Terceiro Mundo.

Não gostamos de gente dos “pays extérieurs” metendo o bedelho em nossos negócios.

Estão informados.

Em segundo lugar, terá pela frente um corpo funcional que, historicamente, entende ser a Cinemateca um assunto privado.

Até onde me lembro, Carlos Magalhães foi o único a saber lidar por longo tempo com o problema. Não quer dizer que eu o admirasse, aliás. Como insinuei acima, não aprecio gente que fala olhando por cima do meu ombro…

Mas admito que ele é um talento político (o que também está longe de ser um elogio).

Talvez agora esse corpo vá ser mesmo renovado.

O mais é coisa simples: saber ir atrás de dinheiro, criar boas políticas de difusão e restauro, manter o interesse do Audiovisual, mobilizar as pessoas, fazer com que os rancorosos deixem de lado o rancor…

Não é nada fácil, e também nada impossível.