Blog do Inácio Araújo

Arquivo : May 2013

Um pouco de tudo
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Inácio Araújo

DE DVD

Não há como os DVDs brasileiros, normalmente muito pobres, sem extras, sem nada, concorrerem com a possibilidade de baixar filmes na internet ou mesmo com os piratas.

Por isso é importante e belo esse “Acossado” que a Versátil acaba de lançar.

São dois discos, um deles só de extras.

Nem sempre muito bons, mas no fim resta sempre algo a reter.

E por vezes muito interessantes, como a intervenção do Luc Moullet, que por sinal está no disco principal mesmo.

Aí vale a pena comprar ou mesmo alugar. Fora isso… esse é um mercado morto.

DE TV

Há um enorme exagero com essa história de séries de TV.

São tratadas como se os americanos tivessem acabado de inventá-las.

Quem viu Rim-Tim-Tim, Lassie, Roy Rogers, Bonanza, Rota 66 etc. sabe que não é bem assim.

Elas são contemporâneas mais ou menos do início da TV.

Digo isso:

1. porque existe um esforço para criar séries no Brasil. Muito bem. Há precedentes. Vigilante Rodoviário fez um sucesso louco nos anos 60.

É preciso buscar ali o exemplo. Foi feito todo por pessoal vindo da Maristela, Alfredo Palácios produziu e Ary Fernandes é quem dirigia.

Não era genial, mas pegava muito bem o nascimento da indústria automobilística, a massificação das estradas (como virtualidade ou não).

Enfim, isso que eu não vejo as séries atuais se mostrarem capazes de captar: atualidades, desejos, transformações.

2. Mad Men é notável mesmo.

DE CINEMA

Falar o quê? Faroeste Caboclo é pífio. Começa com um plano, um único, com a responsabilidade de imitar o Sergio Leone. E não consegue nada.

O roteiro é banal, previsível todo o tempo. A direção vai atrás. Parece que essa gente nunca entrou num cinema. Não é possível…

DE FUTEBOL

Como são-paulino eu tinha obrigação de torcer para o Atlético Mineiro. Afinal, lá á quase uma sucursal do meu time. Tardelli, Richarlyson, Josué, Junior César. Sem contar o Cuca.

Todo o pessoal que os mauricinhos diretores mandaram embora desprezando e tal. Meu herói deles é o Richarlyson. Não é um craque, mas, caramba, como o cara é esforçado. Só a torcida do SPFC que não reconhecia isso. Porque ele é gay. E daí? Acho que devia ser acolhido até mais que os outros por isso. Mas a turma, não, não pode, nós somos machões… Ah, vai, esses torcedores (de todos os times) são uns enrustidos bobocas.

Agora, saiu o Richarlyson, veio o Junior Cesar, saiu o Junior Cesar, veio o Juan, saiu o Juan, veio esse Cortez, saiu o Cortez… Bem, eu já perdi a conta.

Esses diretores boçais, esses mauricinhos se acham o máximo, são uns bocós.

São bem a elite paulista mesmo. Está bem representada. Uns bobos alegres.

Dito isso, as transmissões de futebol me irritam. Toda hora o comentarista diz que o nosso time (qualquer um) é “tecnicamente muito melhor”. O time deles é sempre catimbeiro, malandro… E o juiz sempre um criminoso em potencial.

O que isso gera? Bem, quando jogam aqui no Brasil os brasileiros se vêem na obrigação de se jogar na área, fazer fita, ver se cava pênalti. Acham que o juiz tem de roubar para nós. É quase coisa de direito divino.

Os locutores acompanham, de um modo geral.

Isso é uma palhaçada.

O Atlético não mostrou em momento nenhum ser melhor que o time mexicano. Nem tecnicamente, nem taticamente, nem nada.

Teve sorte.

Mas eu acho que foi marcado pela própria torcida.

Quem foi o cretino que teve a idéia daquelas máscaras?

Sabe que estava jogando contra um time mexicano?

Que o misticismo é o fundamento do México, praticamente?

Quem vai brincar com isso quer brincar com fogo, não?

É que nem brincar de vudu contra um time do Haiti: não dá pé.

Os caras são especialistas nisso.

Mas não é disso que eu queria falar.

Quero falar um dia da completa falta de honradez do futebolista brasileiro.

Era preciso começar criando lições de ética.

Produzindo valores.

Mas chega de falar besteira, não é?


Dois suicídios
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Inácio Araújo

Todo mundo já sabe, acho, que prefiro filmes “vazios”. Sem mensagem. Sem apoio excessivo nos temas.

Mas o canadense “O que Traz Boas-Novas” não se deixa intimidar pelo tamanho do tema.

Temos, de início, o suicídio de uma professora. Ela se enforca na classe onde leciona e, ao que parece, de modo a que seja vista por um determinado aluno.

Como não encontra um substituto para ela, em seu lugar entra um argelino, que não é bem imigrante, é um cara que está pedindo asilo político ao Canadá (a ação se passa em Montréal).

A partir de então temos o tema da pedagogia em destaque no filme. Da pedagogia moderna. Detesto quando se observam os métodos educacionais como chave para o entendimento do mundo. Se fossem, a URSS não teria ido aonde foi parar.

Mas existe algo a discutir no cinema a respeito desde “Zero de Conduta”. A França é quem eu vejo ter sido mais consequente em relação ao tema. Veio depois Truffaut, com “Os Incompreendidos” e houve um filme mais recente, não lembro o nome agora, sobre o problema da escola francesa (republicana) em relação a imigrantes, religiões, convivência de cultura distintas (e conhecimentos idem) numa mesma classe, etc.

“Boas-Novas” não tem o mesmo alcance, mas possui uma sensibilidade a reter, na medida em que o M. Lazhar, o novo professor, cuidará de ensinar aos alunos certas coisas que parecem esquecidas: autores clássicos, certa disciplina, sentido de organização. E tal.

Quer dizer: se “Zero” e “Incompreendidos”, sobretudo o segundo, tem no caráter repressivo da escola um inimigo do estudante, o filme canadense joga no sentido contrário: uma pedagogia excessivamente liberal tende, nessa visão, a criar crianças superprotegidas (ou mimadas), que sabem se servir muito bem de prerrogativas há pouco obtidas para oprimir seus mestres, tornando-se, conforme o temperamento (ou o dos pais, com idéias tipo “não me toques”) pequenos tiranos. E mestres oprimidos não ensinam: estão contra a parede.

Evidentemente, começar pelo suicídio é uma apelação. Pode até ter havido algum caso assim, mas isso não quer dizer nada, nadinha… Me parece que não ajuda na discussãoem nada. Maso assunto levantado é mais que pertinente.

Há mais de uma geração que cresceu sob esse tipo de ideologia pedagógica, a da liberdade total. O número de pessoas malcriadas cresceu muito, e não sei se a inteligência floresceu enormemente por isso.

Elena

Muitas pessoas vêm me falar bem de “Elena”, entre elas minha irmã. Estou longe de partilhar desse entusiasmo. Por inúmeras razões. A primeira delas é que, ao final do filme, constato que não descobri nada, praticamente, sobre a moça, exceto que tinha um desejo quase insano de se tornar atriz.

Tudo mais a seu respeito permanece, se não perdi nada, intocado. Quem era ela à parte isso?

Existem seus diários gravados, e os filmes caseiros, e alguma coisa de apresentações de Elena (ela aparece numa bela dança, espécie de dança de serpentina no programa Metropolis).

Muito pouco para um filme que se justifica como algo que vai em busca de Elena, de seus enigmas, de sua morte.

Ler a sua carta de despedida me parece uma invasão de privacidade que a fraternidade não chega a perdoar. Elena diz ali que se mata porque não consegue exercer sua arte, a única coisa que a justificaria.

Bem, vamos ver um pouco essas palavras. Ela é uma brasileira que vai estudar arte dramática em NY. É uma estrangeira, portanto. Sonha com Hollywood e, talvez, a Broadway.

Como todos sabemos, o que não falta é quem sonhe com Hollywood e a Broadway. Se cada um que não tenha sido bem sucedido nesse aspecto se suicidasse não haveria braços para enterrar todos eles.

Às vezes a gente vê um jovem ator, acaba de se consagrar, e sabemos em seguida o quanto ele pastou antes de chegar lá. E o quanto a sorte contou. E o quanto contou um bom agente. E outros acasos. O número de garçons e garçonetes (lembremos “Mulholand Drive”) nesse ramo não é grande por acaso.

Na verdade não estamos diante de um filme sobre Elena, mas sobre os sentimentos da irmã a seu respeito. À irmã ocorre ser a diretora do filme, Petra Costa. Trata-se, portanto, de um desses documentários confessionais que têm se multiplicado nos últimos tempos, alguns interessantes outros nem tanto. Petra é também a narradora em primeira pessoa. A primeira pessoa é ela: sua dor, sua perplexidade face à morte da irmã. A necessidade de juntar documentos, de visitar os lugares, de rever as imagens… Essa necessidade de explicação gira em falso. É compreensível, do ponto de vista pessoal: quem poderia encontrar uma explicação plausível para a morte de um ser querido? Para uma morte prematura? E violenta?

Mas um artista tem o dever de buscar uma explicação fora de si mesmo. Assim, o que me chama a atenção é o número de omissões a respeito de Elena e sua família.

Petra não avançou nada no conhecimento da irmã, a julgar pelo filme. Como ela era, realmente, à parte as aparências? E a família? Por que vai a estudar no exterior, longe da família? Etc.

Eu entendo que à autora do documentário interessem basicamente os aspectos sentimentais da história. Mas não entendo porque eu deveria me deixar seduzir por eles. Ou antes, eu sei que o espectador de cinema é um ser especialmente seduzível por sentimentalidades.

Eu me pergunto apenas uma coisa: se Petra colocasse suas palavras, seu monólogo sobre a irmã em texto, num livro, será que as mesmas pessoas iriam suportar a coisa?

Sei que para parcela imensa da população o cinema é um depósito de sentimentos. Que uma boa música triste leva milhões às lágrimas diante de uma cena sem nenhum valor. Mas, por favor… Dentro de certos limites.

Passemos a uma questão importante: a família. O filme nos informa que os pais eram do PCdoB, que só não foram para o Araguaia não me lembro mais porquê. Daí cessa toda informação. É bem errado, tratando-se de um documentário, pois por mais belo que seja estar no PcdoB, na guerrilha, lutar pela liberdade e tal, isso não acrescenta nada ao destino de Elena. Vira uma espécie de título nobiliárquico: ele lutou no Araguaia. Pois pois.

Mas por que o pai desaparece da história? E como desaparece? E a mãe, além do seu justificável olhar de tristeza, o que sabemos a respeito dela?

E essa tristeza vem da morte da filha? Aceitemos. Mas ela se culpa pela morte ou não? Ela aceita a versão de que a filha morreu porque não conseguia um bom papel? Isso me cheira a lorota, com toda franqueza. Se Elena estava deprimida não haveria algo mais profundo nisso? Por que não se toca no assunto?

Isso é o que no fim o filme me passou: que existe para lançar sentimentos e sentimentalismo sobre o assunto, ao mesmo tempo em que preserva certos mistérios familiares com muito cuidado.

* * *

Bem, eu sei que, se existe tradição na internet, vai chover gente dizendo que eu sou um coração de pedra, que digo isso porque nunca perdi nenhum ente querido etc.

A esses só posso dizer que o filme lembrou-me o “Poema à Minha Irmã Morta”, que escrevi um dia. Felizmente esses não terão como chorar à leitura desse texto adolescente que, felizmente, rasguei e joguei fora antes que tivesse chance de chegar à celebridade.


Virada à paulista
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Inácio Araújo

Não acredito, francamente, que seja obra do governador a produção de eventos policiais durante a Virada Cultural.

Tendo a acreditar (é uma crença, apenas), sim, que a PM tenha feito corpo mole na vigilância, até porque leio vários testemunhos nessa direção.

A PM teoricamente é responsabilidade do governador, assim como a segurança pública. O problema é que na prática a PM age como melhor lhe convém. Isso não é de agora, vem dos tempos da chamada “gloriosa Força Pública”.

A PM não só pratica como patrocina indiretamente a violência, de cujo combate vive (e em cujo combate não raro morre, pois enfrenta reações cada vez mais organizadas e mortais).

Dito isso, a PM pode não ter combatido efetivamente os arrastões, mas também não os promoveu, isso é certo.

Mas quem teria promovido esses arrastões? Seria o crime organizado? Parece improvável: a Virada não afeta seus interesses, até onde se pode perceber.

Apenas como exercício de ficção não me parece impossível pensar que isso se organize a partir de grupos tipo neofascista, para quem a cidadania é a primeira inimiga. Pois arrastão na Virada, do ponto de vista econômico (e a menos que houvesse mesmo acordo com a PM) não creio que compense o risco.

Na Virada quase tudo é de graça. As pessoas não levam dinheiro, a não ser para alimentação ou uma comprinha no camelô, essas coisas. Não é um lugar de reunião de ricos. Um arrastão numa praia do Guarujá, em janeiro, de acordo, pode compensar os riscos. Mas na Virada?

Sim, porque o mais interessante da Virada não é que seja uma reunião de eventos gratuitos, mas que durante 24 horas todos possam desfrutar de uma igualdade de direitos e deveres diante das coisas. Vamos todos de metrô ou similar. Caminhamos pelas mesmas ruas. Podemos ver a Gal ou lá quem seja, os ricos e os pobres. Não faz diferença. Que tudo isso se dê em torno de eventos culturais, tanto melhor.

A Virada é uma conquista da cidadania, criada, aliás, num governo do PSDB. Apesar de serem evidentes as tendências suicidas desse partido tenho dúvidas de que seria tão suicida assim.

Já uma quase insignificante questão me parece, sim, de responsabilidade de alguma instância do governo estadual. A falta de luz por quase quatro horas bem na região onde estava a alimentação poderia ter gerado tumultos sérios. E isso sim podia cair como veneno no colo do governador.

Em suma, não vejo como partidarizar sucessos e problemas da Virada Cultural. Vejo esse evento como uma espécie de guerra, onde todo mundo fica junto independentemente de visões divergentes.


Sayad, a cultura e a Cultura
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Inácio Araújo

 

O que João Sayad lega à Cultura é, em grande medida, a recuperação da TV Cultura.

Não se vê mais (pelo menos eu não vejo) aqueles anúncios das Casas Bahia, aquela feira ordinária em que o canal tinha se transformado.

A parte de cinema enriqueceu-se enormemente: há uma sessão nas quintas às 22h (podia não ser apenas na versão dublada, mas enfim…), há documentários regulares, preservou-se a sessão da Mostra etc.

Sempre dá pra reclamar, claro, mas eu penso no essencial.

Não foi só no cinema. O Metrópolis ganhou mil por cento, acrescentando a Marina Person, o Manuel Costa Pinto, as apresentação de músicas ao vivo, tudo isso animou muito o programa, que era bem precário, bem feito na base da boa vontade.

Bem, o negócio é o seguinte: sai o Sayad e entra o Marcos Mendonça.

Que no passado… Não sei, não vou dizer que foi ele quem destruiu o que o Roberto Muylaert tinha feito, não sei se foi ele.

Mas ele comandou o projeto Vera Cruz, quando era Secretário da Cultura e simplesmente arquivou o programa, e mais a colaboração cinema/TV, que era uma coisa importante na época.

É verdade que ele arquivou a Vera Cruz porque se encheu dos cineastas. Eles de fato são uma categoria chata. Mas têm lá seus motivos, também.

Enfim, se voltar aquela coisa varzeana de Casas Bahia, de anúncio o tempo todo e tal já sabemos a quem isso vai se dever. Além do governador, claro.

P.S. – A primeira afirmação de Mendonça, aliás, beira a catástrofe. Ele critica a exibição da série “Mad Men” na Cultura. “Mad Men” é uma série muito forte, em primeiro lugar, e além do mais aumentou a audiência da emissora. Ou seja, é tudo que Mendonça não quer. Pelo jeito quer é anúncios das Casas Bahia entupindo a programação.


O que se move ou… Um Biscoito Fino
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Inácio Araújo

Porque de uns tempos para cá a idéia difundida é que o cinema é que precisa correr atrás do público.

Vide RioFilme, GloboFilmes, Conspiração etc etc.

Todos esses querem saber “o que o público quer” e, em seguida, “dar o que o público quer”.

Mas desde quando o público sabe o que quer?

Nós somos aqueles que não sabemos: o artista é que indica, mostra, vai na frente.

Essa é sua função no mundo.

Mas é preciso separar o artista do fazedor. Fazedores há muitos. Artistas, nem tanto.

Eu digo isso depois de me encantar com “O que se Move”, o belo filme de Caetano Gotardo.

É um filme perfeito? Longe disso.

No primeiro episódio, sobretudo, há escolhas incompreensíveis: um menino que fica olhando meia hora para um cisne, para um cisne, enquanto a gente pede: “corta, corta, pelo amor de Deus”.

E, mesmo avançando no terreno pegajoso do verossímil, me pareceu bem incômodo uma família paulistana com um filho que fala que nem se tivesse crescido no interior, com uma outra família (ah, não, nenhuma relação com o terceiro episódio).

Há também algumas distâncias incômodas. Por que Cida Moreira entra em PP logo de cara? O que isso quer dizer?

As coisas aos poucos se acomodam. Compreendemos logo que ali há uma experiência estética, a busca de um entendimento das coisas.

Não é um desses filmes alienados que vivemos fazendo sobre vidas paulistanas.

Estamos no território Bresson. É justo que um estreante apanhe um pouco. Quase necessário.

E ao longo do filme mesmo as coisas melhoram. O elenco se ajusta. As distâncias também.

Algumas soluções de elenco se mostram muito, muito boas: O menino do terceiro episódio é notável.

Enfim, esse filme não correu atrás do que eu, público, queria. Eu é que tive de correr atrás dele. Que alegria, isso. Ir buscar um filme dentro de nós…

Pernambuco nos tem dado essa satisfação regularmente. São Paulo, muito pouco. Havia Anna Muylaert, por exemplo, mas isso não faz volume. É preciso outros filmes, outros artistas, de tal modo que o espectador compreenderá, pouco a pouco, que não quer tanto assim ver as ficções que a Globo exporta da TV, que a vida tem outras coisas a dizer.

Arrisco dizer que a massa ainda pode muito bem comer desse biscoito fino: o artista não pode correr atrás dessa massa. Ela é que virá atrás, interessada, lembrando que está viva.


Renato Russo ou a volta por cima de Fontoura
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Inácio Araújo

Biblioteca Aberta na Cinemateca

O pessoal da Cinemateca avisa que eu me enganei quadradamente ao afirmar, outro dia, que a Biblioteca da instituição estaria fechada.

Não está. Apenas está fechada nos finais de semana.

Durante a semana está funcionando normalmente.

Espero que, com essa mancada, não tenha prejudicado ninguém.

Somos Jovens Nós os Velhos?

O Fontoura, vejo pelo IMDb, está com mais de 70 anos.

No entanto, seu “Somos Tão Jovens” tem um vigor que não vejo na maior parte dos filmes das gerações pós-Embrafilme.

No começo do filme, quando o Renato Russo sai para o exterior, não me lembro se ao sair do hospital, mas é bem no começo, há um quase primeiro plano com câmera na mão trepidante.

Dá a impressão de que o cara do steadycam não veio naquele dia.

Eu me senti meio mal no cinema.

Mas em seguida refiz o percurso: Pode ser que não seja muito bom, mas pelo menos eu não estou naqueles filmes em que tudo é certinho, tudo é correto, engomadinho…

E o Fontoura estava certo. O filme foge disso. Não sofre de obsessão fotográfica. Não sofre pela necessidade de um roteiro certinho…

Aos poucos foi se impondo uma coisa meio raivosa, inquieta, inconformista. É por esse lado que o filme vai ver aquela geração e o rock Brasília e o RR em particular. E pelo lado de uma garotada a rigor privilegiada, mas que sentia a sufocação da ditadura e de algum modo sente que precisa se expressar.

No fundo, estamos no Fontoura do “Rainha Diaba”… Talvez não todo o tempo, porque os tempos são outros.

Para mim, a melhor parte vai até o fim do Aborto Elétrico, mais ou menos. Gosto daquele sul-africano. Gosto bem dessa parte (embora haja talvez um excesso de garrafas quebradas…).

Quando entra nas dúvidas existenciais do RR, o que eu quero da vida, o que eu quero da música, Legião Urbana e tal me parece menos interessante, aquela coisa mais convencional, quase Turma da Praia, e não digo isso no mau sentido, não: o filme preserva certo encanto, mas é um encanto meio industrial, aquela coisa um tanto programada, mas não falsa propriamente…

Não sei se me exprimo bem, mas vamos lá.

Não por acaso o filme vai acabar lá tipo 2 Filhos de Francisco, com o sucesso de certa forma funcionando como prova dos nove, coisa bem Velha Hollywood, bem séc. XXI paulistocarioca. O sucesso redime. Uma concessão.

Mas, enfim, o filme faz sucesso… Que bom: um sucesso merecido… Oportunista no bom sentido. Como o cinema deve ser.

Não alienado, quero dizer. Não é cinema alienado. Porque esses filmes de músico são em geral alienados, mesmo o dos Gonzaga, com seu fotografismo, no fundo não tem nada a dizer.

“Somos Tão Jovens” tem.

Agora, é preciso dizer que os personagens dos pais são quase sempre lamentáveis.

Caramba, o cara era economista do BB, mas se comporta como o cara que serve cafezinho. Não é que finge não entender nada por causa do emprego, essas coisas… É que parece bobo mesmo.

Aliás, o apartamento onde vivem é bem à altura disso. Uma cenografia horrorosa. Aquela parece verde… Aquela toalhinha em cima da TV… Onde foram achar essas coisas?

Mas isso são detalhes. O filme tem vigor, parece filme de cara novo. O filme de muitos caras novos é que parecem encarquilhados, atualmente.

O filme entrou, leio na Rosário, com uns 450 mil espectadores. É um contraponto aos “filmes de público”, ao facilitário geral que anda por aí disfarçado de cinema.


Cinemateca Urgente
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Inácio Araújo

O ex-diretor da Cinemateca, Carlos Magalhães, agora é diretor, me dizem, de um Centro Cultural do Instituto Butantã.

Duas versões que ouço sobre o fato:

1. ele está bem lá: já conhece as cobras da Cinemateca

2. ele está bem lá, entre as cobras, suas iguais.

Ou, para resumir: a Cinemateca continua a mesma.

Pelo tanto que se briga parece um lugar onde fazer roubos insanos, coisas assim. Nada.

Talvez todo mundo esteja errado nessa história. Magalhães é um homem de poder, eliminou, ou tentou, as vozes divergentes lá dentro. Cai do cavalo mais ou menos pelos mesmos meios. Mas sua gestão foi produtiva em várias coisas.

Em outras… Dou só um exemplo: tirar a Jornada do Cinema Silencioso do Carlos Roberto Souza não é uma coisa banal. Ele tirou da curadoria o cara que inventou, desenvolveu, desenhou e, em última análise, fez o sucesso do principal (e único) evento importante da CB.

Não era pra dar novos rumos coisa alguma: era apenas para chatear, para ferir, para fazer uma maldade a um desafeto.

Bem, aí vem o MinC e varre o CM como se fosse um detrito no meio da sala.

Para tudo. Dispensa os funcionários contratados via SAC. Para tudo.

Parou a biblioteca. Uma biblioteca não pode parar. Há pesquisadores trabalhando. Há teses sendo produzidas.

Como para uma biblioteca?

Enfim, todo mundo talvez tenha um tanto de razão, todo mundo tem um tanto de desrazão.

Mas a questão agora é outra: a Cinemateca tem de voltar a funcionar urgentemente. Há filmes deteriorando. Há filmes para ser exibidos.

E tudo mais.

O Jairo Ferreira dizia que a CB não ia por adiante por causa do Matadouro (ela fica no ex-Matadouro Municipal). Que há muitos maus fluidos, muito sofrimento ali.

Pode ser.

Mas antes de ser lá a coisa já era complicada.

Descomplicou no governo Lula, com Gilberto Gil.

Embananou tudo na gestão Dilma, com essa mania de empurrar mulher em tudo que é lugar.

Tem que desembananar de vez.

Depois de Maio, nova visão

Resiste, resiste muito, e bem.

Há coisas que não notei da primeira vez: a ênfase na fragilidade da vida. Isso vem desde a primeira imagem (leitura de Pascal). Acontece várias vezes.

O filme é “Carlos”: a mesma coisa, como trajetória, não que sejam personagens iguais. Sonho, dissolução, o que resta de tantas coisas, no que se transformaram as pessoas? E a Europa? E seus filhos?

E para que servem idéias?

O que se fez da libertação que representou aquele momento?

O filme é cheio de questionamentos. Muito vivo.


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