Política da imagem
Inácio Araújo
Durante a campanha presidencial, algumas pessoas de vez em quando pediram que eu me manifestasse a respeito das coisas que aconteciam.
Na verdade, um fiz um pequeno comentário sobre o primeiro dia da propaganda política. Parei em seguida, porque era fácil intuir que seria uma campanha muito feia. Aliás não deu outra, como todo viu.
Então vou pular essa parte para ficar com a primeira manifestação da futura presidente (ou presidente eleita?) sobre cultura. Ela diz que quer abrir um cinema em cada cidade do Brasil.
A tarefa, já se disse, é impossível. Mas isso não tem muita importância. A direção é que conta. Abrir um cinema em cada cidade significa propor uma sociabilidade nova. Os cinemas fecharam, no passado, para virar igrejas (capital e interior), estacionamento ou prédios (grandes cidades em geral).
Quando fecharam é porque, na maior parte das vezes, já eram pouco frequentados. Voltar-se para o cinema significa, de imediato, uma tomada de posição em relação à cultura. Não há mais lugar para o hábito ''natural'' do cinema. Ir a uma sala é um gesto de cultura. Cultura antes de mais nada popular, acessível a todos, capaz de integrar-se mesmo ao processo educacional com mais facilidade do que hábitos como a leitura ou o teatro. Capaz de ajudar na alfabetização (há pouco, um escritor disse na TV que, para ler as legendas, é preciso empenhar-se para ler rápido), mas também abrir as pessoas para o mundo.
Não é preciso que cada cidade tenha uma sala. Mas a porcentagem de cidades com cinema no Brasil hoje (cerca de 9%) é lamentável. Imagine-se então que 91% das cidades estão esperando o DVD ou a TV para ver o ''Chico Xavier'', o ''Tropa 2'' ou tantos outros. São cidades, a rigor, fora do mundo.
Mas esses filmes chegarão lá de um modo ou de outro. É o hábito de acompanhar, de ver os filmes, de esperar por eles, de conversar na saída da sala que essas cidades não possuem mais. Reencontrá-lo seria uma coisa preciosa. Torço para que dê certo.